No início era o verbo; e o verbo vinha do cérebro; e o cérebro era Deus. Não no início dos tempos, mas pelo menos do início do primeiro milênio até, sei lá, o início do século 21, no Ocidente, o cérebro foi o maestro dos órgãos internos, conduzindo a sinfonia de processos fisiológicos necessários para que estivéssemos vivos —sendo capaz, inclusive, de, ao mesmo tempo em que conduzia a sinfonia de processos fisiológicos necessários para que estivéssemos vivos, compor as sinfonias musicais necessárias para que achássemos graça em estarmos vivos. A alma, chegou-se a cogitar, se de fato existisse, estaria em alguma ranhurinha daquele quilo e pouco de massa cinzenta.
No polo oposto, tanto geográfico quanto simbólico, estavam as tripas e sobretudo, ou melhor, “sobtudo”, o orifício onde terminavam e por onde devolvíamos ao barro do qual havíamos sido feitos um barro, digamos assim, um tanto menos nobre. Pelo menos era o que pensava o cérebro, majestático, sem saber que olhava o mundo de uma janela de Versalhes.
Então, uns anos atrás, veio a robespiérrica ciência e, se não chegou a decepar o cérebro na guilhotina, alçou da lama, ao menos, o populacho. O intestino não era o lixão do corpo, era uma composteira. Dentro dele, descobriram, vivem mais células bacterianas, fúngicas e vírus do que todas as nossas células humanas. Estes microrganismos —microbiota, para os íntimos— são responsáveis pela produção de boa parte dos neurotransmissores necessários para a condução da sinfonia fisiológica, assim como para a composição das sinfonias musicais.
A felicidade, a tristeza, o sistema imunológico, as doenças mentais: tudo está, ao que parece, ligado ao bom ou mau funcionamento do baixo-bucho. Chegaram a apelidar o intestino de “segundo cérebro”, no que me parece o maior case de rebranding da história da anatomia. Beleza, então: melhor o rei na barriga do que fazer das tripas, coração. Aceitei.
A ciência, contudo, é como uma criança de três anos, cuja principal ocupação é tirar as coisas de seus lugares para colocar noutros, enquanto pergunta “por que isso?”. “Por que aquilo?”. “Por que aquilo outro?”
Fui ontem ao médico. “Pressão tá boa. Eletro tranquilo. TGO e TGP um pouquinho alterados, mas nada grave. Triglicérides melhorou. O que me preocupam são os glúteos.” Achei que tinha ouvido errado. Ou que talvez ele tivesse abreviado alguma enzima, sei lá, estaria eu com uma altíssima (ou baixíssima) taxa de gluteolase —fosse lá o que gluteolase fosse?
Não. Meus ouvidos estavam ótimos, o problema era mesmo na bunda. “Hoje a gente sabe que a longevidade e a qualidade de vida na velhice estão diretamente ligadas à quantidade de músculos dos glúteos e da coxa. Você tá com muito pouco.” Primeiro eu achava que para ser um velho saudável, precisava fazer palavras-cruzadas. Depois, que precisava tomar Yakult. Agora, parece, importante mesmo é fazer agachamentos. Antes, contudo, que eu conseguisse dobrar os joelhos, meu telefone apitou. Recebo do Gustavo, no grupo da corrida, a matéria “as panturrilhas são o segundo coração“. Não abro.
Sei aonde isso vai parar. Na direção em que a ciência caminha, ou seja, do norte ao sul, numa espécie de revisão decolonial das hierarquias anatômicas, vão acabar decretando que não é o cérebro, o intestino, a bunda, as coxas ou as panturrilhas o que mais importa no corpo humano: o epicentro da vida são pés. Para todos aqueles que, como eu, caminham por este planeta redondo sobre pés chatos, seria uma péssima notícia —muito embora, para meus detratores, pudesse funcionar como uma conveniente explicação.
Fonte ==> Folha SP