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Justiça social também é estratégia para os negócios – 01/07/2026 – Papo de Responsa

Quatro trabalhadores com uniformes cinza e capacetes verdes separam garrafas de vidro em esteira de triagem em ambiente industrial. Garrafas transparentes e verdes, além de cacos de vidro, estão espalhados na esteira.

Muito se fala sobre justiça social no Brasil, mas ainda são poucas as empresas que tratam o tema como uma responsabilidade estrutural do negócio. O Brasil segue carregando uma desigualdade que define trajetórias.

Segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE, a renda dos 10% mais ricos chegou a ser quase 14 vezes maior que a dos 40% mais pobres em 2024. Incorporar a justiça social no centro das decisões corporativas exige mais do que investimento, exige mudança de lógica.

Historicamente, o setor privado se acostumou a pensar soluções “de cima para baixo”, desenhadas dentro de escritórios e distantes das realidades que pretendem transformar. Esse modelo, além de limitado, tem se mostrado insuficiente diante da complexidade dos desafios sociais.

Um dos principais aprendizados que tive nesses anos de atuação é que não há transformação real sem escuta. E não qualquer escuta, mas uma escuta que reposiciona quem vive a realidade no centro do processo.

Isso implica reconhecer que soluções eficazes não nascem apenas da capacidade técnica das empresas, mas do diálogo com quem enfrenta, diariamente, as barreiras que queremos ajudar a superar.

Quando trabalhadores informais, como catadores e ambulantes, ou jovens em situação de vulnerabilidade passam a ser considerados interlocutores, e não apenas beneficiários, a agenda muda. Ela deixa de ser sobre assistência e passa a ser sobre reconhecimento, inclusão e construção conjunta.

Esse deslocamento também provoca uma revisão importante sobre como as empresas enxergam a própria cadeia de valor. Atividades invisibilizadas, mas essenciais para o funcionamento de grandes operações, precisam ser reconhecidas como parte legítima da engrenagem econômica e merecedoras de condições dignas, oportunidades e acesso a desenvolvimento.

É nesse ponto que a equidade social deixa de ser um conceito abstrato e passa a se materializar na operação. Não como exceção, mas como critério. Quem participa da geração de valor também deve participar das oportunidades que ela cria.

Nesse sentido, uma reflexão do sociólogo Boaventura de Sousa Santos tem me servido como importante referência: “Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem; lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize”.

Um princípio que, para mim, orienta a construção de iniciativas capazes de ampliar oportunidades sem apagar identidades, aspecto a se preservar em qualquer pensamento por trás do que hoje chamamos de impacto social.

A proximidade com os territórios nos mostrou que questões como consumo de risco, evasão de oportunidades e falta de perspectivas estão frequentemente interligadas.

Enfrentar esses desafios exige uma abordagem integrada. Mais do que criar iniciativas isoladas, o desafio está em construir respostas que dialoguem com essas múltiplas dimensões, e que sejam desenhadas com quem conhece essas realidades por dentro. Quando essa lógica é aplicada, o impacto deixa de ser pontual e ganha escala.

Mas talvez o principal resultado não esteja só nos números, e sim na compreensão de que justiça social não é um “valor adicional”, mas uma responsabilidade inerente ao papel que empresas e instituições desempenham na sociedade.

Para as grandes corporações, isso implica ir além do discurso e assumir um papel ativo na redução das desigualdades.

Implica reconhecer que não se trata de uma escolha, porque empresas que operam em contextos profundamente desiguais são diretamente impactadas, na formação de talentos, na sustentabilidade das cadeias produtivas ou na estabilidade de seus próprios mercados.

No setor privado, o ponto de partida é claro: deixar de tratar a justiça social como um tema acessório e assumir seu papel como agente indispensável dessa transformação.



Fonte ==> Folha SP

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