Essa história começa em 1978, quando minha tia Didi comprou o disco do rapaz da samambaia. Era assim que eu chamava, aos três anos de idade. Ele passava o dia sorrindo pra gente, pois a capa ficava posicionada em destaque no móvel da radiola. Ô bicho lindo, ela dizia, beijando a capa.
E eu concordava. Cresci com Chico cantando para nós. E me ensinando a organizar o pensamento em palavras.
Dito tudo isso, deixo o leitor preparado para me julgar um pouco menos ao contar que, quando estive em Paris para lançar “Oração para Desaparecer” em francês, decidi fazer o roteiro de Chico Buarque. Ser fã é estar disposta a tudo.
Comecei pela livraria preferida, no Marais. Falei em francês ruim com a livreira, disse que estava lá por causa do Chico Buarque, esperava que ela me contasse anedotas dele, mas não rendeu. Ela só passou minhas compras e pronto.
Levei pra casa um livro lindo do Fellini falando dos seus sonhos. Pedi para fazer uma foto e ela aceitou, meio sem graça. Deixei a senhorinha em paz e segui minha rota.
Fui comer em um dos restaurantes favoritos dele e pedi o mesmo prato: um tartare. As coisas começaram a dar errado nesse exato momento, eu saberia disso em breve. Segui de lá para a próxima meta, que seria a porta da casa dele. Então começaram as pontadas.
Aquela foi a pior dor de barriga da minha vida, de suar frio e achar que vai morrer. Tive de entrar correndo no primeiro restaurante que apareceu no caminho para usar o banheiro. E o que apareceu foi um lugar chique e caro, mas antes que o meu marido Júlio me impedisse, com seu senso de responsabilidade financeira, eu já estava pedindo uma água Evian e sei lá o quê. Corri para o banheiro assim que o garçom virou as costas.
Quase não volto. O Júlio já estava para pesquisar rabecão em francês, mas voltei, pálida. Saí de lá derrotada, triste, falida, mas mesmo assim continuei o caminho para a suposta casa do meu ídolo.
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Achei. C’est ici, eu disse, conferindo uma glória francófona ao gesto. Fiz a foto. Tanta luta por dois minutos de suspiros. Foi só o tempo da pontada na barriga voltar com mais força.
Saímos correndo pela rua lateral procurando outra lanchonete para ter outro prejuízo em troca de um vaso, mas achei uma farmácia e entrei. Um senhor de uns 170 anos, a cara do Ravengar do Antônio Abujamra, atendia uma senhora com o marido. Os três julgavam a minha tentativa de explicar disenteria em francês.
Uma moça caridosa me vendeu um tubo branco e mandou tomar logo três comprimidos. Obedeci. Foi mágico. Traduzi o rótulo, era um probiótico. Até hoje tenho o vidro, está na validade. É o probiótico do Chico Buarque.
Nunca mais pude nem ver a foto de um tartare, carne crua com mostarda não deu certo pra mim. Eu só comeria de novo se fosse com o Chico Buarque, valeria a pena. Se eu passasse mal, pediria pra usar o banheiro da casa dele. Ele entenderia, certamente já teve dor de barriga em Paris.
Depois, ainda compraríamos outro vidro de probiótico na farmácia do Ravengar. Minha tia Didi, meu pedaço arrancado de mim, de quem tenho tanta saudade, ficaria orgulhosa. O Rapaz da Samambaia continua sorrindo pra gente.
Fonte ==> Folha SP