Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Entre o processo e o tambor: a defesa silenciosa de uma tradição

Ian Almeida

Há processos que não cabem apenas no número que recebem. O Processo TCE-MG nº 1066833, formalmente uma Tomada de Contas Especial vinculada ao Convênio nº 3052/0/10, trouxe em suas páginas algo maior do que a apuração de contas: trouxe o peso de uma instituição cultural antiga, viva, feita de couro, fita, fé, canto, marcha e memória.

No centro documental, estava a Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros, chamada a responder por fatos ligados à prestação de contas de recursos públicos. O valor histórico indicado na instauração da tomada de contas foi de R$ 69.635,04, quantia que, por si, já apontava uma exposição patrimonial concreta. Mas, no plano real, o risco era mais amplo: desgaste institucional, responsabilização de gestores, fragilização da representação cultural e sombra administrativa sobre uma das manifestações mais profundas da sertania montes-clarense.

Ian Almeida Advocacia

Quase seis anos de travessia jurídica

O processo foi cadastrado no Tribunal de Contas em 21 de maio de 2019. Seu desfecho veio anos depois, com decisão em 17 de dezembro de 2024, reconhecendo a prescrição das pretensões punitiva e ressarcitória, seguida de acórdão em janeiro de 2025 e arquivamento em abril de 2025. Quase seis anos de travessia documental, jurídica e institucional.

Nesse percurso, figura o advogado Ian Anderson Lopes de Almeida, OAB/MG 148.282, procurador cadastrado no feito, cuja atuação ultrapassou a formalidade seca da assinatura processual. Houve compilação extensa de documentos, juntada de peças, pesquisa em fontes públicas, diligências presenciais junto ao Tribunal, construção de defesa técnica e acompanhamento continuado do procedimento. Não se tratou de uma defesa de balcão, mas de um trabalho de reconstrução: pegar papéis dispersos, fatos envelhecidos, memórias administrativas e devolvê-los ao processo em forma juridicamente compreensível.

Ian Almeida Advocacia

Governança para preservar a instituição

Também houve, segundo a contextualização apresentada, atuação de governança interna: acompanhamento de eleições estatutárias por dois ciclos, com abertura de edital, chamamento, ordem de votação, regularidade do pleito e zelo pela estabilidade institucional da Associação. Esse ponto importa porque a cultura popular, quando organizada em associação, precisa também sobreviver ao mundo dos documentos, atas, estatutos, editais e responsabilidades formais.

Outro eixo relevante foi a defesa da posição histórica da instituição nas Festas de Agosto de Montes Claros, manifestação cuja raiz cultural antecede, em sentido simbólico e identitário, a própria leitura moderna da cidade. Em reuniões formais com o Ministério Público, com a presença do Promotor de Justiça Guilherme Roedel, foram debatidos temas sensíveis: direito à manifestação pública, inserção de novo terno nas celebrações, limites democráticos da vedação e preservação da estrutura tradicional que sustenta a manifestação.

Cultura, tradição e memória coletiva

Nessas reuniões, também participaram estudiosos e técnicos de reconhecida contribuição cultural. Entre eles, o professor e pesquisador Dr. João Batista, o Joba, referência montes-clarense na leitura social, simbólica e etnológica desse universo; e o Dr. Carlos Guilarim, vindo da capital mineira, com contribuição qualificada no estudo das congadas, reinos, reinados afrodescendentes e suas permanências no tempo de Minas Gerais.

A atuação ali descrita não se resume à defesa de uma entidade. Foi defesa de uma primazia cultural, de uma ordem simbólica, de uma continuidade comunitária. Sem negar os princípios democráticos, sem transformar tradição em muro, a argumentação buscou ponderar causa e efeito: abrir espaço ao novo sem desfazer, por descuido institucional, a legitimidade histórica de quem sustenta a festa há gerações.

Quando a advocacia se torna ferramenta

Esse é o ponto de maior impacto: a advocacia, nesse caso, não apareceu como palco. Apareceu como ferramenta. O procurador não se põe como herói, mas como um dos filhos possíveis dessa terra, alguém que, conhecendo o valor da manifestação, aceitou trabalhar onde o processo encontra a memória e onde a técnica jurídica precisa respeitar o tambor.

A decisão final do TCE-MG, ao reconhecer a prescrição das pretensões punitiva e ressarcitória, representou benefício objetivo à Associação: afastou uma cobrança histórica, encerrou uma exposição administrativa relevante e permitiu que a instituição respirasse sem o peso daquele apontamento sobre sua continuidade.

Ian Almeida Advocacia

Entre os documentos e o tambor

Fica, portanto, o marco: não apenas um processo arquivado, mas uma página de travessia. De um lado, o Tribunal, os prazos, os documentos, as citações, os pareceres e o acórdão. De outro, os Catopês, Marujos e Caboclinhos, com sua dignidade antiga e sua permanência na rua, na fé e na lembrança coletiva.

E entre esses dois mundos, a advocacia fez o que, em seus melhores momentos, deve fazer: ordenou o conflito, deu forma à defesa, protegeu a instituição e serviu à realidade. Sem espetáculo. Com presença. Com lastro. Com pertencimento.

__

WhatsApp: IAN ALMEIDA ADVOCACIA
38 99198-0345

Instagram: @ianalmeida.advocacia

Relacionados

Principais notícias

O novo mapa do ensino jurídico em São Paulo
Ivan Baptista defende valorização da segurança pública e apresenta propostas voltadas aos servidores e à redução da desigualdade social no Rio de Janeiro
Alien Summit Campinas chega à 6ª edição reunindo pesquisadores da Ufologia Científica e Expansão da Consciência

Leia mais

Como cúpula militar do Brasil vê chance de ações dos EUA
Como cúpula militar do Brasil vê chance de ações dos EUA
Fux marca nova audiência de conciliação sobre empréstimo para salvar BRB
Fux diz que Justiça não pretende obrigar bancos a socorrer BRB
Chrome deixa computador lento? Veja 4 navegadores que podem substituí-lo
Claude vai identificar textos e imagens criados por IA na União Europeia
Mãe de Isabella Nardoni chora com pergunta da filha de 6 anos: 'Dói'
Atriz de 'The Office' britânico revela diagnóstico de câncer incurável
Charles sugeriu mudar nome de Kate e deixou William furioso, diz livro
Wagner Moura leva 'A Última Casa' ao topo da Netflix apesar de críticas negativas
'Minha filha me ensinou que cuidar também é ato de coragem', diz Henrique Fogaça
Ana Paula Renault faz reflexão sobre paternidade presente e se emociona no Dia dos Pais