O Brasil pode eleger, no dia 25, Flávio Bolsonaro (PL), o primeiro presidente evangélico escolhido pelo voto direto. No entanto, as lideranças das grandes denominações, com centenas ou milhares de templos pelo país, saem derrotadas desta eleição.
Esses pastores estiveram entre as primeiras resistências abertas a Flávio. Quando seu nome foi lançado, em dezembro, Silas Malafaia disse que “o amadorismo da direita faz a esquerda dar gargalhadas”. Marco Feliciano, pastor e deputado federal, cobrou da família Bolsonaro “reciprocidade” com os evangélicos, “em vez de uma relação de via única”.
Durante a maior parte do ano, as grandes igrejas mantiveram distância segura do candidato. Não queriam romper com o provável nome da direita no segundo turno, mas temiam ser contaminadas por novas revelações do caso Master, o escândalo do banco de Daniel Vorcaro, ao qual áudios divulgados em maio ligaram Flávio.
Os grandes nomes só entraram no barco em setembro. Primeiro, reagindo ao embate no Supremo Tribunal Federal entre o pastor presbiteriano André Mendonça e Alexandre de Moraes. Depois, ao confirmar que Flávio seria mesmo o nome da direita no segundo turno, resistia aos ataques e ganhava engajamento popular. O apoio cresceu à medida que a vitória parecia próxima. Chegaram à reta final; Flávio conquistou parte desses votos sem a atuação dos pastores.
O eleitor evangélico, aliás, dá sinais de que rejeita ser tratado como massa de manobra. Na pesquisa Iser/Quaest deste ano, 83% dos entrevistados se disseram contra a indicação de voto por pastores e padres. Esse fiel não precisa acatar a lista de candidatos do líder; já conversa com políticos e influenciadores pelas redes sociais.
Em sua maioria, esse eleitor se identifica como de direita e é conservador nos costumes. Vê a religião como um marcador social que aproxima os fiéis e sabe que eles somam 47 milhões de brasileiros, segundo o Censo de 2022.
Membros parecem ter desertado eleitoralmente de suas igrejas. O colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, cravou que a “onda bolsonarista impõe derrota histórica às grandes igrejas evangélicas”, que não conseguiram eleger seus candidatos no Legislativo.
Em resumo, os grandes pastores, que funcionavam como porteiros entre o político e o fiel, terão menos influência. Cedem lugar a uma nova geração de políticos evangélicos, como Nikolas Ferreira, Michelle Bolsonaro e o próprio Flávio Bolsonaro, que dispensam intermediários para falar com esse público.
Eles pertencem a igrejas menores, estão menos submetidos à tutela de um pastor e transitam bem por um degradê teológico que vai do pentecostalismo clássico a denominações tradicionais, como a presbiteriana, passando pelas igrejas de estilo jovem, que se apresentam como “churches”.
Os grandes pastores não perderam toda a relevância política. Perderam o monopólio sobre esse eleitor.
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Fonte ==> Folha SP