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O que os relatórios das bets revelam sobre a sua visão do Brasil – 28/10/2026 – Opinião

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Na história do combate ao tabagismo, o grande divisor de águas ocorreu quando os documentos e comunicações internas da indústria dos cigarros vieram a público. Foi ali que o mundo descobriu a extensão da farsa: nos bastidores, os executivos sabiam perfeitamente que a nicotina era altamente viciante e que o produto final era letal, enquanto na TV sustentavam que o fumo era apenas uma “escolha individual e um estilo de vida”.

Ainda não temos o vazamento dos e-mails ou das conversas privadas dos executivos do jogo digital —cuja atividade foi proibida no Brasil por meio de medida provisória. Mas, para entender a verdade sobre esse projeto comercial, sem a névoa das campanhas publicitárias e dos influencers, basta ler com atenção o documento mais sincero que existe: os relatórios anuais que essas multinacionais entregam aos acionistas nas Bolsas de Valores de Londres e Nova York. Ali, o discurso de fachada do “jogo responsável” e do “entretenimento inofensivo” se desfaz.

Tratar o jogo online como mero lazer é de um cinismo escancarado. A Lancet Public Health Commission expõe o risco real das plataformas digitais: o transtorno do jogo afeta quase 1 em cada 10 adultos e 16% dos adolescentes que fazem apostas esportivas online. O cenário é ainda mais grave entre os adolescentes expostos aos cassinos virtuais, afetando 1 em cada 4 que utilizam a plataforma. A rentabilidade do negócio parece se apoiar significativamente no uso compulsivo.

As apresentações a investidores de gigantes das bets como a Entain e a Flutter trazem uma imagem clara de como veem o Brasil. Esqueça a ideia de um país habitado por cidadãos com famílias, histórias e orçamentos a preservar. O país é descrito como uma “huge opportunity” (“enorme oportunidade”), e os relatórios previam que o Brasil seria o “fastest growing regulated market outside of the US” (algo como “o mercado regulado que mais cresce fora dos Estados Unidos”).

A razão dessas altas expectativas? Um conjunto de vulnerabilidades que a indústria explora despreocupadamente.

A começar pela escala humana e o contexto social: uma população massiva, hiperconectada ao smartphone e exposta à ansiedade econômica diária e faminta por qualquer promessa de alívio financeiro rápido. A isso soma-se o sequestro do esporte, em que os relatórios citam a “paixão inigualável” do brasileiro pelo futebol como o ativo central do negócio.

A parceria com clubes de futebol como o Palmeiras é descrita com a maior naturalidade do mundo (“the partnership with Palmeiras football club is driving good player engagement”; “gera bom engajamento entre os jogadores”): uma simples ferramenta de marketing para converter a paixão dos torcedores em novos jogadores da plataforma.

Se as cervejarias cooptam o esporte há décadas, as bets levaram essa lógica ao limite: a captura é instantânea e em tempo real. Para fechar a engrenagem de vulnerabilidades do Brasil, entra a velocidade como amiga íntima da compulsão. A incrível eficiência do Pix compôs, nesse cenário, a ferramenta perfeita para a impulsividade. O atrito bancário (e a possibilidade de raciocinar) zerou e, entre o impulso de tentar recuperar um valor perdido e a transferência do dinheiro, passaram a existir apenas três segundos.

A rentabilidade do negócio é tamanha que os R$ 30 milhões da outorga governamental foram absorvidos rapidamente pelas receitas locais.

Há um conselho antigo que diz: “Quando alguém lhe mostrar quem realmente é, acredite na primeira vez”. Quando se compreende a natureza estritamente extrativista desse modelo de negócio, deixada clara nos relatórios da indústria, qualquer disputa partidária sobre “quem regulamentou o quê” perde o sentido.

Não se combate uma engrenagem desenhada para explorar as vulnerabilidades da mente humana com apelos ingênuos à responsabilidade individual. Afinal, a vida frequentemente não acontece na frieza do córtex pré-frontal, mas sim no calor da dopamina.

O mundo está em um ponto de virada crítico sobre como lidar com o avanço do jogo digital, e a experiência brasileira tornou-se o estudo de caso observado atentamente no cenário internacional.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

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