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‘Selic em 15% faz bilionário ganhar R$ 400 mil por dia sem produzir nada’, diz ex-consultor da ONU

'Selic em 15% faz bilionário ganhar R$ 400 mil por dia sem produzir nada', diz ex-consultor da ONU

DANIELE MADUREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “As pessoas têm imensa dificuldade em entender grandes números”, diz o economista Ladislau Dowbor, 84, que até gravou um vídeo intitulado “Entenda a economia em 15 minutos”. O professor titular de pós-graduação da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e ex-consultor de agências da ONU (Organização das Nações Unidas) não tem dificuldade em explicar cifras e indicadores a partir de exemplos do cotidiano.

“Pago R$ 350 pelo dia de trabalho da minha faxineira, valor transferido para a conta dela de maneira digital. Como ela tem problemas de saúde, contratou um desses planos geridos por empresas que não entendem nada de saúde. Então descubro que entre os sócios deste grupo está a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, que administra trilhões de dólares. Ou seja: parte do dinheiro que eu pago para uma pessoa pobre no Brasil vai para um grupo americano riquíssimo -que também é acionista da bandeira de cartão de crédito que eu uso para pagar o café da manhã na padaria.”

A profunda transformação da sociedade na era digital e o seu impacto no capitalismo e na ampliação da desigualdade é um dos temas centrais na pesquisa de Dowbor. O assunto é tema do livro “Os Desafios da Revolução Digital” (editora Elefante), que venceu o Prêmio Brasil de Economia 2025 do Cofecon (Conselho Federal de Economia). No ano anterior, outro livro do catalão de origem polonesa, naturalizado brasileiro, havia vencido o mesmo prêmio: “Resgatar a Função Social da Economia” (Elefante).

Autor ou organizador de mais de 45 livros, Dowbor mantém boa parte das obras no seu site com acesso gratuito. Em 2021, também foi finalista do Prêmio Jabuti.
*
Folha – Por que tantos segmentos de serviços e da indústria correm o risco de enfrentar apagão de mão de obra?
Ladislau Dowbor – O desafio número um no Brasil é a desigualdade, é o país mais desigual do mundo. O PIB brasileiro soma R$ 12,3 trilhões. Se a gente dividir pela população do país, 215 milhões, arredondando, dá R$ 20 mil por mês, para uma família de quatro pessoas. Dá para viver, não? Mas há um alto grau de concentração de renda.
Os 300 bilionários no Brasil têm muito dinheiro guardado. Imagine o dono de R$ 1 bilhão que, em vez de investir em serviços ou produtos, compra títulos do governo atrelados à Selic, que pagam 15% de juros ao ano. Sem produzir nada, esse bilionário vai ganhar mais de R$ 400 mil ao dia. Ou seja, quanto mais rico, mais dinheiro aplicado, maior o enriquecimento. É algo completamente diferente do que acontece com 80% da população, que não só não acumula, como enfrenta dificuldade em manter o que tem. O problema deles não é ‘o que que eu faço com o meu dinheiro?’. O que ganham nem dá para fechar o mês.

Folha – Se o bilionário não investe em gerar riquezas, não emprega…
Ladislau Dowbor – Pense no quanto a economia fica fragilizada. A concentração de renda fragiliza a demanda que, naturalmente, vai fragilizar a produção. Imagine alguém com dinheiro: ele vê que as famílias não estão comprando. Se quiser pegar um empréstimo no banco para montar um negócio, vai pagar 25% ao ano –na China, é 2% ao ano, na Europa, entre 3% e 4%. Como ele vai completar o capital para desenvolver uma indústria com um custo desses? Vai ficar atolado em dívida. Por outro lado, ele tem a opção de comprar ativos do governo que pagam 15% de juros.

Folha – Por que esse sistema se mantém?
Ladislau Dowbor – Se você visita deputados, senadores, vai descobrir que eles mantêm aplicações financeiras e vivem disso. Eles têm consciência de que nós temos um sistema que drena em vez de gerar recursos, o núcleo básico da economia. Você precisa ter famílias com mais recursos para ter demanda, que dinamiza o investimento empresarial, que gera empregos, consumo, mais impostos para o Estado, que aplica o dinheiro de volta para fomentar a economia, e então o ciclo se completa. No Brasil, o ciclo da economia não fecha. Ganha-se muito mais dinheiro através de processos financeiros do que produtivos.

Folha – A questão central não é o empresário que paga R$ 2.000 ao mês ao trabalhador da escala 6×1, que muitas vezes decide prestar serviços para os aplicativos, esperando ganhar mais?
Ladislau Dowbor – É o conjunto do sistema que está travando a economia. Se, em vez de se preocupar com o arcabouço fiscal –que eu chamo de ‘palhaçada’, não de maneira irresponsável–, você se preocupa com políticas sociais, colocando mais dinheiro na educação, na saúde, é uma maneira de enriquecer as famílias. Porque sobra dinheiro para o consumo, que vai elevar as vendas, o lucro. Ganhando mais, o empresário vai pagar melhor e atrair mais pessoas.
É essencial entender que se trata de um ciclo. Uma economia desigual não se desenvolve. Com os governos Lula e Dilma 1 melhorou um pouco, crescemos 3,8%, em média, durante dez anos. O Banco Mundial chamou o período de ‘The Golden Decade’, a década dourada do Brasil. Com os governos Temer e Bolsonaro, a farra financeira aumentou muito mais.

Folha – Por que o senhor chama o arcabouço fiscal de ‘palhaçada’?
Ladislau Dowbor – Nas economias que funcionam, 40% do bem-estar econômico das famílias não correspondem a quanto elas têm no bolso, mas sim o quanto elas têm de hospitais públicos na região onde moram, as ruas do bairro asfaltadas, o parque perto de casa –tudo isso é salário indireto. É bem-estar econômico construído através de políticas públicas,
O Canadá, por exemplo, tem um salário mais baixo que o dos americanos, mas lá as pessoas contam com creche, escola, universidade, hospital, tudo bom e de graça, parques por toda parte, água limpa. Interessante, não? A título de comparação, a esperança de vida do americano é de 78 anos, ao custo de US$ 11 mil ao ano por pessoa para o sistema de saúde. Na China, a esperança de vida é de 79 anos, ao custo de US$ 1.000 ao ano, porque o país investe, por exemplo, em água limpa. A saúde preventiva é imensamente mais eficaz do que ter hospitais, médicos e um monte de remédios. Mas na contabilidade do arcabouço fiscal no Brasil, investimento público no bem-estar econômico é chamado de gasto. É uma cretinice dizer que, quando o país cresce pouco, é preciso reduzir gastos do governo.

Folha – O que o governo deve fazer?
Ladislau Dowbor – É preciso investir na inclusão produtiva, que envolve, sim, o repasse para benefícios como o Bolsa Família. Nessa hora, o pessoal da Faria Lima grita: ‘Meu Deus, vai gerar déficit!’. Não, este dinheiro é para dinamizar a economia. Em segundo lugar, investir em infraestrutura. Pouco importa de onde o governo tira o dinheiro. Se não tiver o suficiente, pode gerar déficit, usar conversão das reservas cambiais, emitir dinheiro, aumentar a dívida… O que importa é para onde vai o dinheiro.
Na ONU, a gente calcula que a cada R$ 1 investido em saneamento básico, R$ 4 são economizados em saúde. Ou seja, tem um efeito multiplicador, você enriquece a sociedade. Se você constrói uma ferrovia, reduz dramaticamente os gastos transportando soja de caminhão, a economia se torna muito mais produtiva. O dinheiro que o governo investe volta, com imposto sobre a atividade.
Também é preciso reduzir a transferência de dinheiro para paraísos fiscais; tem banco com mais de 30 filiais em paraísos fiscais, onde nenhum cliente tem nome, é só um número. No Brasil, o dinheiro vai justamente para grupos financeiros em favor da austeridade fiscal.

Folha – A questão dos impostos é muito discutida porque, no Brasil, metade da tributação é sobre o consumo.
Ladislau Dowbor – Isso é uma deformação radical brasileira. Quase tudo da renda dos 80% da base da população é voltado para o consumo, são essas pessoas que pagam imposto. Quanto ao rico, quantas bistecas ele consegue comer por dia, quantas camas ele precisa para dormir? Ele atende todas as suas necessidades e ainda conta com 90% da renda disponível. Entende? O impacto relativo do imposto sobre o consumo é essencialmente sobre a massa da população. No Brasil, a taxa de juros para as famílias é de 58% ao ano, para as empresas, de 25%, enquanto na China os juros são limitados a 2% ao ano. Por isso não faz sentido para o chinês fazer aplicação financeira, ele prefere produzir. Essa é uma mudança do papel do Estado, de fomentar a economia em parceria com as empresas, em favor da sociedade.

Folha – Qual seria um exemplo dessa parceria?
Ladislau Dowbor – A China precisa sair do consumo de carvão, que provoca uma tragédia ambiental. Decidiram investir pesado na energia solar. Mas para isso não fizeram uma grande estatal de painéis solares –construíram uma grande estatal de máquinas e equipamentos voltados à produção de painéis solares. Resultado: hoje o país tem milhares de empresas de produção de painéis solares. Em qualquer cidade, um empreendedor compra as máquinas, pagando juros de 2%, e passa a produzir painéis solares. O investimento pesado em termos financeiros e de tecnologia já foi feito pelo estado. Ou seja: você gerou proteção ambiental, empregos, lucros, usando o estado como um motor de arranque para dinamizar milhares de atividades.

Folha – Mas a China é uma ditadura e as decisões são centralizadas. Aqui temos uma democracia com presidencialismo de coalizão
Ladislau Dowbor – Esta é uma questão estrutural. Em 1997, foi aprovado algo absurdo: o financiamento de campanhas políticas por empresas. Depois de 18 anos, no final de 2015, o Supremo Tribunal Federal se deu conta que tinha sido violado o artigo 1 da Constituição, que diz que “todo poder emana do povo” –não das empresas, nem dos bancos. Um momento de clareza. Mas qual o impacto estrutural dessa influência durante quase 20 anos, do poder local ao nacional, no legislativo e executivo? Houve uma apropriação privada da política, que transformou radicalmente a relação entre os sistemas público e privado, que se perpetuou. Essa articulação nefasta entre o financeiro, que não gera emprego, não produz, e os políticos que participam desse tipo de lucro, é uma deformação estrutural da economia. Eu uso a China como exemplo porque ela assegura que o dinheiro seja produtivo. Aqui chamamos aplicação financeira de investimento. Mas até nos Estados Unidos existe essa diferença: o ‘productive investment’ [investimento produtivo] e o ‘speculative investment’ [investimento especulativo]. São duas coisas bem distintas.

Folha – O capital especulativo ganhou espaço demais na sociedade?
Ladislau Dowbor – Eu escrevi um artigo chamado ‘O dreno financeiro’. É o seguinte: a taxa Selic a 15% tira 10% do PIB em pagamento de juros, que vão para os grandes grupos da Faria Lima, para a BlackRock etc. Hoje o dinheiro é apenas uma informação no computador. Você dá ‘enter’ e transfere milhões, sem qualquer controle público sobre este processo. Outro dreno: o endividamento das famílias, que consome também 10% do PIB. Os juros de 25% ao ano pagos pelas pequenas e médias empresas (as grandes pegam dinheiro internacional a 3%), drenam mais 4% do PIB. A evasão fiscal (dinheiro que deveria entrar no país e não entra), mais 6%. Renúncias fiscais, mais 4% -sendo que essas renúncias podem ser até positivas, como tecnologias para a agricultura familiar, mas aqui costuma ser por amizade com políticos. A tudo isso você acrescenta o fato de que, no Brasil, desde 1995, lucros e dividendos são isentos de impostos. Eu pago 27%, mas os bilionários pagam 0%. Também a Lei Kandir isenta de impostos a produção para exportação de bens primários e semiprimários -os grandes frigoríficos, o agronegócio, a extração de minério, todos isentos de imposto. O ITR, Imposto Territorial Rural, também costuma não ser cobrado. Tudo somado representa um dreno financeiro da ordem de 30% do PIB. Todo esse dinheiro poderia ser investido em ferrovias, saneamento básico, saúde, educação etc.

Folha – A falta de investimento em educação se reflete na falta de mão de obra qualificada
Ladislau Dowbor – No Brasil, 21% têm curso superior. No Canadá, são 62%. É um desequilíbrio estrutural que demanda décadas, gerações para ser corrigido. Isso limita o investimento das empresas, o país deixa de gerar riquezas.



Fonte ==> Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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