A multiplicação dos cursos de medicina lança no mercado uma legião de profissionais despreparados, como acabam de demonstrar os resultados do Enamed. Parte desse efeito se deve à precariedade das escolas e parte ao fato de estarmos recrutando alunos mais burros mesmo. Se até 20 anos atrás entrar num curso de medicina exigia aprovação em vestibulares hiperconcorridos, hoje o único requisito é dispor dos cerca de R$ 15 mil para pagar as mensalidades.
Usuários de serviços médicos tentarão se proteger. Um caminho é buscar consultar-se só com especialistas. Profissionais com título de especialista ou fizeram residência na área ou passaram numa prova, tipicamente difícil, ministrada pela sociedade médica correspondente. É um indicativo de qualidade.
À medida, porém, que o título de especialista se transforma em valor, mais atores se empenharão em obtê-lo ou em obter outras versões de um selo de qualidade que os diferencie. É nesse contexto que surgiu a Ordem Médica Brasileira (OMB), entidade que busca criar um sistema paralelo de certificação do título de especialista.
Há já um razoável estoque de médicos sem título, mas que fizeram pós-graduações “lato sensu”. No sistema oficial, são apenas as sociedades médicas consorciadas à Associação Médica Brasileira (AMB) que os concedem e o Conselho Federal de Medicina (CFM) os reconhece. A OMB já trava batalhas judiciais com a AMB e o CFM.
A questão é complicada. Deixar a cargo das sociedades médicas, isto é, dos profissionais que já estão no mercado, definir quem poderá ou não entrar gera algum tipo de conflito de interesses. E não há muita dúvida de que o médico que cursou uma pós, ainda que em sentido lato e não estrito, tende a saber mais do que um que não cursou.
A iniciativa da OMB, porém, tem o grave vício de criar uma enorme bagunça no sistema de titulação que deixará o usuário de serviços médicos sem saber onde pisa. Produtores de vinhos e queijos cuidam com mais carinho de seus selos de procedência e qualidade.
Fonte ==> Folha SP