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Extremos ideológicos são clientes da violência política – 23/02/2026 – João Pereira Coutinho

Dois soco-ingleses, um vermelho e outro cinza, encostados um contra o outro

Aconteceu na cidade francesa de Lyon: Quentin Deranque, 23 anos, militante da ultradireita, foi espancado e morto por militantes da ultraesquerda quando protestava contra a conferência da eurodeputada Rima Hassan.

O crime foi filmado e compartilhado nas redes sociais. O país está em choque —e o governo de Emmanuel Macron acusa o partido França Insubmissa, ao qual pertence a eurodeputada, de responsabilidade moral pelo crime, dada a sua retórica extremista. Jean-Luc Mélenchon, o líder do partido, recusa qualquer responsabilidade.

Nada de novo aqui: o extremismo político, cedo ou tarde, acaba produzindo monstrinhos e vítimas. Hoje foi Quentin Deranque. Anos atrás, foi Clément Méric, militante da extrema esquerda assassinado por neonazistas. Amanhã será outro qualquer: a violência política, como a história do século 20 ensina, é uma droga poderosa com clientela fiel.

E os principais clientes sempre vieram dos extremos, em parte por serem tão parecidos. Não digo isso porque Mussolini, antes de se tornar fascista, era um socialista radical. Ou, inversamente, porque Nicola Bombacci, antes de ser fascista, foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano.

Digo isso porque o “narcisismo das pequenas diferenças”, como ensinava Freud, tende a amplificar a rivalidade entre semelhantes.

Quando a ideologia é totalitária; quando se defende um Estado de partido único; quando se procura controlar a mídia e a produção cultural; quando se usa o terror contra o inimigo por meio de polícias secretas; quando se despreza o indivíduo; e quando o culto ao líder não admite crítica ou debate, pouco importa se estamos falando de Roma, Berlim ou Moscou. Exceto para os fanáticos, é claro.

O mesmo vale para o tempo presente, na Europa ou nos Estados Unidos. Discutir se a ultraesquerda é mais violenta que a ultradireita —ou vice-versa— é uma discussão interessante, porém estéril.

Ambas recorrem à violência. Ainda que, segundo um relatório do independente Center for Strategic and International Studies, a violência da extrema esquerda esteja aumentando nos Estados Unidos, nas últimas três décadas foi a extrema direita que liderou essa corrida.

Se existe diferença entre os dois lados, ela não está entre os marginais. Está na distância que os moderados mantêm em relação aos marginais —imensa à direita; menor à esquerda.

O jornalista Barton Swaim, do Wall Street Journal, chamou a atenção para essa geometria variável. Olhemos para a retórica da extrema direita, baseada em falsidades supremacistas, desprezo pela democracia parlamentar, misoginia virulenta ou paixão delirante por teorias conspiratórias.

Haverá algum liberal clássico ou conservador liberal que, de forma explícita ou implícita, nos Estados Unidos ou na Europa, se aproxime desse lixo ideológico?

Se há, eu desconheço: esses temas são repulsivos para qualquer democrata de direita –e o terrorismo cometido em seu nome é ainda mais repugnante.

Observemos agora a extrema esquerda, que ataca e destrói em nome do anticapitalismo, do antissionismo, da igualdade radical, do ambientalismo purificador, da luta contra as “fobias” (homofobia, transfobia etc.). Qualquer desses temas, de forma mais ou menos diluída, encontra eco numa parte da esquerda progressista.

Dito de outra forma: é improvável encontrar colunistas liberais ou conservadores liberais escrevendo na grande imprensa sobre a superioridade da raça branca ou defendendo a subjugação das mulheres. Isso é conversa de manicômio.

O mesmo não se passa entre muitos progressistas: como afirma Barton Swaim, com razão, os temas que levam a extrema esquerda à violência são explorados tranquilamente nas colunas de opinião do New York Times.

Se ainda restassem dúvidas, bastaria lembrar o que se disse ou escreveu quando Luigi Mangione assassinou Brian Thompson, CEO de uma seguradora de saúde nos Estados Unidos (“Matar é errado, mas…”).

Ou quando Tyler James Robinson fez o mesmo com o ativista ultraconservador Charlie Kirk (“Foi um crime, mas…”). Esse “mas”, escreve Swaim, é uma confissão de cumplicidade.

Parafraseando a sra. Gertrude Stein, um marginal é um marginal é um marginal. Convém não esperar milagres desse bestiário.

O milagre, se vier, só poderá vir dos “compagnons de route” à esquerda, como o sr. Jean-Luc Mélenchon, que glorificam a luta revolucionária do conforto dos seus sofás –e depois se espantam, cinicamente, quando alguém decide passar da teoria à prática.



Fonte ==> Folha SP

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