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Dejetos apocalípticos da guerra – 18/04/2026 – Muniz Sodré

Figura masculina central com túnica branca e manto vermelho toca a testa de paciente deitado em cama hospitalar. Ao redor, quatro pessoas observam, incluindo enfermeira e familiares. Bandeira dos EUA e Estátua da Liberdade aparecem ao fundo sob céu dramático com raios de luz.

Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à “slopaganda” (“sloppy propaganda”) iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu “eme”.

Tivesse Trump lido “A Arte da Guerra” (Sun-Tzu), ponderaria que, “se o inimigo é superior, finja-se de fraco, à espera da arrogância”. Ou seja, à espera de visão curta. Isso fizeram os aiatolás durante décadas, preparando-se para o conflito com o que chamam de Grande Satã. “Shit happens”, dizem os americanos, a catástrofe moral é também olfativa. E, esteticamente, grotesca.

Essa categoria aplica-se à indecisão ontológica entre o humano e o animalesco: o sublime contempla o sentimento voltado para os céus, enquanto o grotesco conota partes baixas, práticas excluídas do processo civilizatório, dejetos humanos. Indagado se a destruição de infraestrutura civil não seria crime de guerra, disse Trump não ser o caso, porque o povo persa era “comandado por animais”. Só que, respondendo a um jornalista sobre sua saúde mental, pôs-se a grunhir como um porco. Demência, encenada como grotesco.

Não há maior interesse na clínica da miséria metabólica e psicológica de Trump, nem dos aiatolás e mulás, dissociados da milenar civilização persa e dos anseios modernizantes de seu povo. Mas o filósofo italiano Giorgio Aganbem acha relevante refletir por que a nação tida como mais poderosa do mundo se deixa conduzir por um indivíduo oscilante entre narcisismo maligno e demência megalomaníaca.

A sociopatia dos teocratas iranianos garante-se pela repressão brutal da Guarda Revolucionária. Já o etnocídio de Netanyahu e seu governo teocrático apoia-se em fantasias derivadas do Deus vingativo do Velho Testamento, em cordão umbilical com o Estado norte-americano: Hegseth, secretário da Guerra, comparou o resgate do piloto abatido sobre o Irã à ressurreição de Cristo. E Trump postou a si mesmo vestido de Jesus, curando um doente.

Grotescos loucos de Deus, todos eles.

Frágil é a trégua no Oriente Médio. Certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno. Trump não ganhou nada. Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos: dos espaços buscados pelo neocolonialismo israelense às cobiçadas terras raras.

Essas são as drogas e talvez a nêmese do império americano, metafísica da hiperpotência reduzida à dejeção. Na farsa fundamentalista de cavaleiro do apocalipse, Trump arroga-se ao papel de “fúria épica” da Morte, conduzida por corcel amarelo. Na realidade, fúria hípica de um grotesco ginete alaranjado a cavalo de si mesmo, arremedo mitológico do sátiro Pan, metade homem, metade bode. Pânico é o máximo que tem conseguido. “Ao vencedor, os despojos”, vociferou, ainda que espojado em dejetos físicos e morais.



Fonte ==> Folha SP

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