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Criança na rua é sinal de saúde das cidades – 19/04/2026 – Ronaldo Lemos

Grupo diversificado de crianças brinca em área rasa de parque aquático com jatos de água verticais. Fundo azul com imagem de golfinho decorativa. Criança em cadeira de rodas participa da brincadeira.

Quer saber se uma cidade é saudável? Basta olhar para uma única variável: se há crianças andando livremente pelas ruas, sem a supervisão dos pais. Essa variável tem até nome técnico: “mobilidade infantil independente” (em inglês, o acrônimo é CIM).

Um estudo clássico da Fundação Nuffield analisou o tema de forma comparativa em 16 países. O estudo pesquisou 18 mil crianças e seus pais para entender sua mobilidade. Até hoje, é o maior esforço internacional de mapear a questão. Os achados são tristes para o Brasil.

Os países foram divididos em três grupos: topo, intermediário e inferior. No topo, aparece a Finlândia. Lá, aos sete anos a maioria das crianças já anda ou pedala sozinha pelas ruas. Aos dez anos, já pegam transporte público sem supervisão dos pais.

No grupo de alta mobilidade, está o Japão. Lá, 70% das crianças vão à escola a pé. Outro dado que chama a atenção é a liberdade de circulação noturna. As crianças japonesas saem sozinhas também à noite, inclusive no transporte público.

Há até um reality show da Netflix sobre o tema, chamado Crescidinhos. O programa acompanha crianças de 2 a 5 anos fazendo sua primeira andança sem a supervisão de adultos. Em um dos episódios, uma garota de quatro anos pega um ônibus sozinha para visitar a mãe no hospital.

O Brasil aparece no grupo de países com menor mobilidade infantil independente. E vale notar: não é que não haja crianças nas ruas das nossas cidades. Estudos brasileiros mostram que ir à pé para a escola e circular pelas ruas é comum no Brasil. No entanto, essa prática acontece por necessidade, não por escolha.

Quando uma criança finlandesa anda um quilômetro para ir à escola, está exercendo sua liberdade. Já a maioria das crianças brasileiras faz isso por razões inversas: por impossibilidade de escolha. Seja porque não há transporte público disponível, seja porque estar na rua é a única opção.

Para piorar, um estudo feito no Brasil por Cibele Macêdo e colegas com 1.700 crianças de idade média de 11 anos mostrou um dado preocupante. Brincar sozinho nas ruas, nos parques ou em espaços abertos está diretamente relacionado ao bem-estar subjetivo das crianças. Só que há uma ressalva fundamental: quando a mobilidade é sinal de autonomia, o efeito é de fato positivo. Quando é forçada por precariedade (a criança precisa se deslocar sozinha porque não tem outra opção), o efeito no bem-estar subjetivo é negativo. Esse é um achado que não aparece nos estudos europeus.

Diante disso, o que fazer? Os dois maiores inimigos das crianças nas cidades são o trânsito e a segurança pública. É preciso cuidar de ambos. Além disso, a criança autônoma precisa ser vista como um indicador central de qualidade urbana, como foi feito com sucesso na Colômbia.

No Brasil, cidades como Fortaleza, Recife e Rio têm iniciativas como o projeto Caminhos da Escola, que reforça a “andabilidade” no entorno de algumas escolas municipais. O cardápio de medidas eficazes é vasto. Inclui as mais de 60 “play streets” de Londres, que fecham semanalmente algumas ruas para brincadeiras e circulação infantil, a redução da velocidade para 30 km/h em algumas vias, as bibliotecas-parque de Medellín e os superquarteirões de Barcelona. O que não dá é ficar do jeito que está e aceitar que as cidades brasileiras sejam 100% inadequadas para crianças.



Fonte ==> Folha SP

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