Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Universidade pública precisa ser espaço da razão – 11/05/2026 – João Pereira Coutinho

Três urnas antigas de cédulas posicionadas lado a lado, sendo que na urna do meio aparece a cabeça de uma marmota saindo de dentro dela, com imagens de relógios antigos flutuando ao seu redor

A universidade pública brasileira chegou a uma encruzilhada. Ou reafirma com clareza os princípios que justificam seu prestígio, sua autonomia e o investimento público que recebe ou continuará perdendo legitimidade diante de uma sociedade que já começa a vê-la como uma frente da guerra cultural.

A universidade existe nã para disputar poder, ensinar doutrinas ou mobilizar identidades, causas e paixões, mas para submeter ideias e evidências ao teste público da razão, do método e da crítica. Defendê-la é recusar a condescendência diante de práticas que a impedem de ser, como queria Darcy Ribeiro, autônoma em todos os sentidos: livre de tutela política, imune à instrumentalização ideológica, resguardada do clientelismo e da mediocridade.

Foi para defender essa missão que um grupo de professores e pesquisadores lançou recentemente o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. O documento nasce de uma constatação incômoda: há hoje, nas universidades públicas, um ambiente crescente de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso.

O paradoxo da liberdade acadêmica no Brasil está na indignação seletiva. Quando governos como o de Bolsonaro tentaram interferir na universidade, desrespeitando procedimentos de nomeação de reitores, vigiando aulas, ameaçando professores ou usando o orçamento como coação, a reação foi imediata —e correta. Invocamos autonomia universitária, pluralismo, liberdade de cátedra e resistência ao autoritarismo.

Mas a mesma régua desaparece quando a agressão vem de dentro do campus, em nome de causas progressistas. Nesse caso, domina a autocomplacência: a interdição do dissenso vira proteção de grupos vulneráveis; o veto a palestrantes, defesa de “espaços seguros”; a intimidação de docentes, punição moral justificada.

Disso resulta uma universidade invertida: em vez de se afirmar como o espaço por excelência da liberdade de pensar, experimentar e discordar, converte-se no lugar onde as pessoas devem ser protegidas de ideias que as contrariem. Em vez de formar estudantes capazes de enfrentar argumentos difíceis com razões e evidências, passa a treinar militantes que mandam calar, denunciam, punem e expulsam, como se a universidade fosse deles, não um bem coletivo. A liberdade que deveria valer para todos torna-se condicional: absoluta quando protege quem pensa de um jeito; revogável quando ampara o outro lado.

Discursos discriminatórios e assédio existem e devem ser objeto do devido processo. Mas isso é muito diferente de tratar diferenças sobre políticas públicas, economia, segurança, relações internacionais, gênero, raça, religião ou costumes como delitos morais.

Trata-se de autoritarismo e de intolerância. O autoritarismo aparece sempre que um grupo considera seus valores tão superiores que se sente autorizado a punir o dissenso, interditar adversários e subordinar a liberdade a uma causa redentora. A intolerância política, por sua vez, nem sempre se apresenta como ódio explícito a um grupo; muitas vezes surge como recusa a certos atos —falar, convidar, ensinar, discordar— quando praticados por quem está fora da ortodoxia dominante.

A universidade precisa encontrar saídas. Neutralidade institucional não significa indiferença moral, covardia intelectual ou abstenção pública diante de ameaças à universidade ou à democracia. Significa que a instituição deve garantir que todos os lados legítimos numa democracia —progressistas, conservadores, liberais ou outros— tenham o mesmo direito de existir e debater no espaço público acadêmico.

Pluralismo não significa que todas as ideias valem o mesmo, mas que ideias devem ser testadas por argumentos, dados e crítica qualificada, não por gritos, vetos, intimidação ou superioridade moral autoproclamada. A universidade existe não para poupar adultos do atrito intelectual nem para fazer curadoria ideológica, mas para ensinar que conviver com a discordância é parte da vida democrática e da honestidade científica.

É do próprio Darcy, de cujas credenciais progressistas ninguém há de duvidar, a frase que sintetiza o espírito que deveria reger a vida acadêmica nacional: “Nesta universidade ninguém, professor ou aluno, será punido ou premiado, jamais, por sua ideologia”. A universidade precisa, então, escolher entre ser capturada pela lógica das trincheiras ideológicas, como mais um território da guerra cultural, ou recuperar sua vocação mais nobre como instituição aberta, onde a luz da razão tem alguma chance contra as paixões sectárias do tempo.



Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

Inteligência artificial redefine o setor bancário e amplia a eficiência na gestão de riscos
O avanço do e-commerce regional e de nicho: como pequenos negócios estão conquistando espaço digital
Da assistência à estratégia: enfermeiros ampliam atuação e assumem protagonismo na gestão do cuidado

Leia mais

Juiz mantém prisão, e goleiro Bruno é transferido para presídio em Bangu
Juiz mantém prisão, e goleiro Bruno é transferido para presídio em Bangu
Pai de técnico do Barcelona morre horas antes do jogo com Real Madrid
Pai de técnico do Barcelona morre horas antes do jogo com Real Madrid
Tremores no olho: Médico explica 7 possíveis causas destes espasmos
Tremores no olho: Médico explica 7 possíveis causas destes espasmos
EXPERIENCE
Evento EXPERIENCE reúne especialistas em otomodelação e cirurgia de orelha para discutir vendas e posicionamento
Conmebol abre investigação contra Abel Ferreira por 'caso do dedo do meio'
Conmebol abre investigação contra Abel Ferreira por 'caso do dedo do meio'
Deputados americanos pedem que Rubio não designe CV e PCC como terrorista
Deputados americanos pedem que Rubio não designe CV e PCC como terrorista