O Afeganistão acabou de sancionar uma lei que permite que meninas de 9 anos se casem, bastando o desejo dos pais. Aquilo que era tradição tribal passou a ser legal, impedindo que as instituições que se opõem à prática continuem a atuar. Essas crianças pré-púberes são chamadas de “virgens”, deixando claro que se trata de violação sexual infantil abençoada pelo Estado e pela religião.
Num mundo repleto de descalabros impostos às mulheres, existe uma esfera na qual elas têm mais liberdade do que os homens, reveladora do impasse que vivemos.
Embora sofram sanções e ameaças, mulheres podem transitar com mais facilidade entre o que consideramos feminino e masculino. Relatos de meninos espancados pelos pais por brincarem de se vestir de menina, com bonecas ou com maquiagem encontram pouca similaridade no universo feminino. A menina moleque, que brinca com e como os meninos, pode até ouvir desaprovação dos adultos, mas dificilmente se sentirá ameaçada em sua identidade.
Inúmeros são os tabus em torno das brincadeiras masculinas. Sempre se pode encontrar uma menina de bigode e cavanhaque de rolha queimada fazendo par com outra menina numa festa junina escolar, mas nunca se vê um menino de noiva. Por que essa assimetria se não o pavor de aproximá-los da feminilidade? Isso reduz o universo de experiência deles, inibe a capacidade de empatizar com as meninas e leva à paranoia em relação à própria sexualidade, que deve ser confirmada o tempo todo.
Homens, para sustentar o poder que pretendem perpetuar sobre as mulheres, professam diferenças radicais entre os gêneros, sejam morais ou biológicas. As diferenças que existem entre nós, quando existem, não são o problema. O problema é a hierarquia que construímos entre elas.
Há alguns séculos, a masculinidade tem sido colocada como aquilo que é diametralmente oposto à feminilidade. Se a mulher é a referência negativa do homem, quando a posição dela muda, os homens se desorientam e angustiam, o que acaba desembocando em violência.
Entre o extremo apontado no começo do texto e os homens em busca de melhores saídas, muitos jogam na conta da mulher uma resposta sobre a masculinidade. Não temos a resposta, óbvio, mas podemos oferecer um diálogo na condição de que algo inédito ocorra: sermos escutadas. Não se trata de encontrar as saídas que cabem aos próprios homens encontrar, mas de estratégia de sobrevivência para nós.
Feministas são chamadas de feias, masculinas e mal-amadas, rótulos que elas simplesmente ignoram. Já os homens costumam se ressentir diante de qualquer menção à sua pouca masculinidade.
Mulheres têm liberdade para compartilhar as experiências pessoais mais íntimas e o fazem regularmente. Homens não são criados para usar a amizade como lugar de trocas profundas. Embora possam ser muito camaradas, a camaradagem não é baseada em intimidade. Está mais para reforço de uma masculinidade que supõem ser imutável.
Essas liberdades femininas são fundamentais para suas conquistas e revelam muito da enrascada na qual os homens se enfiaram. Se meninos pudessem brincar com a liberdade com que as meninas brincam, talvez tivéssemos menos Talibãs celebrando casamentos infantis.
Em tempo: o Brasil registra 34 mil crianças entre 10 e 14 anos vivendo em união matrimonial hoje.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Fonte ==> Folha SP