Uma das histórias mais interessantes na relação entre argentinos e brasileiros gira em torno de uma palavra: irmãos.
Os brasileiros se referem assim aos seus vizinhos do sul, “os irmãos”, algo que a imensíssima maioria dos argentinos ignora. Obcecados por rivalidades e provocações, esses argentinos estão convencidos de que na terra das praias e das caipirinhas existe uma animosidade permanente contra os do sul. Se aqueles que insultam chamando de “macacos” descobrissem que estão sendo chamados de “irmãos”, desmaiariam.
Esse “irmãos” dos brasileiros é tanto um reconhecimento do outro quanto um desejo de fazer parte dessa América Latina que fala espanhol, de serem aceitos e amados.
Em 2014, dezenas de milhares de “irmãos” se instalaram dia e noite, durante mais de um mês, nas praias de Copacabana e em vários parques, ruas e estádios para entoar “Brasil, me diz como é”, um canto de torcida baseado em uma música cativante (“Bad Moon Rising“, do Creedence Clearwater Revival).
É uma letra extremamente engenhosa, que traz uma falsidade de fundo: a de que a incrível e imerecida vitória argentina por 1 a 0 na Copa da Itália de 1990 foi um trauma nacional para o Brasil.
A verdade é que, desde aquela partida em Turim pelas oitavas de final, em 24 de junho, até as noites febris de 2014, o Brasil havia somado três finais e dois títulos, tornando-se “pentacampeão”.
Enquanto isso, a Argentina, após o título no México em 1986, somou apenas uma final e muitas frustrações. Tudo isso mudou em 2022, no Qatar, claro, mas os “irmãos” não precisavam da desculpa do tricampeonato para cantar “brasileiro, que amargurado você parece, Maradona é maior que Pelé“.
A solução para tudo isso se chama Lionel Andrés Messi, a mais brasileira das grandes estrelas argentinas.
Se Diego Maradona teve que disputar o trono com Pelé e manter uma espécie de relação de amor e ódio, que, no fim, sempre se transformava em admiração mútua, Messi não precisou exibir superioridade diante de ninguém. Ou será que alguém poderia sustentar que Neymar é melhor que Messi?
Nem mesmo Ronaldinho, seu amigo e mentor nos primeiros tempos no Barcelona, foi superior ao argentino, que marcou duas décadas completas de liderança.
Ronaldinho se rendeu a Messi no dia em que o argentino o venceu no futevôlei. Assim, Messi se tornou o único com luz verde para sentar-se à mesa dos brasileiros naqueles primeiros anos do século 21 em Barcelona. Eram Ronaldinho, Deco (naturalizado português) e Thiago Motta, que logo deixou o clube. Muito mais tarde chegariam Dani Alves e Neymar. Eles eram “irmãos”.
Embora houvesse um “irmão” anterior, Sylvinho, a personalidade do lateral-esquerdo estava a anos-luz da de Ronaldinho ou Deco, sem falar na de Motta. Mas Sylvinho, atleta de Cristo, foi fundamental: ele mesmo admitiu na época ter atuado como “irmão mais velho” do argentino.
Quando Ronaldinho deixou o Barcelona, Joan Laporta, que era presidente do clube, foi falar com o argentino para alertá-lo sobre algo: a responsabilidade passaria a ser dele. Ele deveria ser o líder da equipe. E assim o fez, embora com uma característica especial, que Dani Alves destacou: falando muito pouco, apenas o necessário.
“Eu me identifico muito com os argentinos, porque temos a mesma ideia de competição, de raiva, de garra”, disse Alves à época. “Acho que Messi é o brasileiro mais argentino”, acrescentou, entre risos. “Ele nasceu no Brasil e foi levado para a Argentina para ser criado lá.”
Como já foi dito: um “irmão”.
Copa 2026
A newsletter da Folha com o que você precisa saber sobre o Mundial
Fonte ==> Folha SP