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Trump no Salão dos Espelhos – 19/06/2026 – Demétrio Magnoli

Ex-presidente dos Estados Unidos fala em púlpito com microfone, ao lado de quatro bandeiras oficiais, incluindo a bandeira americana e a presidencial, em ambiente interno com cortinas douradas.

O Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919 no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, estipulou as condições da rendição alemã na Grande Guerra. Neste 17 de junho, o governo Trump firmou o Memorando de Entendimento (MoU) pelo qual oferece sua rendição condicional ao regime do Irã. Os ataques de Israel no Líbano adiaram a cerimônia de assinatura, prevista para o resort de montanha suíço de Burgenstock, com vista para o lago Lucerna, uma escolha destinada a prevenir manifestações capazes de constranger tanto a Casa Branca quanto a ditadura militar-teocrática de Teerã.

O MoU simboliza, em si mesmo, o triunfo iraniano. As infraestruturas do Irã sofreram golpes devastadores. Mas o regime que Trump prometeu derrubar, para depois assegurar que dele obteria uma rendição incondicional, emergiu do conflito renovado e mais radical, como interlocutor da maior potência do mundo. A oposição popular foi esmagada –e o MoU proíbe a interferência dos EUA nos “assuntos internos” do país persa, compromisso que garante plena liberdade para a repressão.

Os EUA ficam obrigados à cessação “permanente” da guerra, à retirada de suas forças das “proximidades” do Irã em 30 dias e à imediata liberação das exportações petrolíferas iranianas. Já as negociações para o tratado final têm prazo de 60 dias, passíveis de extensão. Em troca da reabertura do estreito de Hormuz, o bloqueio naval americano já foi levantado. Mas, criticamente, o MoU admite a hipótese da cobrança futura de taxas de trânsito em Hormuz pelo Irã.

A única suposta concessão iraniana encontra-se na reafirmação de sua tradicional promessa retórica de não fabricar armas nucleares. Contudo, os destinos do urânio altamente enriquecido e do programa nuclear dependem das negociações finais, que também eliminariam as sanções econômicas e gerariam um “plano de reconstrução” do Irã no valor de US$ 300 bi. Assim, as “reparações de guerra” previstas no Tratado de Versalhes ganham fraseado ilusionista no MoU.

Os objetivos de guerra de Trump incluíam o encerramento do programa iraniano de mísseis e o fim do apoio de Teerã às milícias regionais do chamado “arco da resistência”. Nada disso aparece no MoU –e, pelo contrário, as “reparações de guerra” facultam ao regime iraniano a retomada do financiamento do Hezbollah, do Hamas e das milícias xiitas iraquianas. Pelas mãos de Trump, o Irã ganha o estatuto de principal potência do Oriente Médio, interlocutor inevitável de todos os Estados da região.

A Alemanha derrotada na Grande Guerra não teve o direito de participar das negociações do Tratado de Versalhes. Israel não foi convidado a negociar ou assinar o MoU. Mas o documento de rendição impõe o fim da guerra “em todas as frentes, inclusive o Líbano”, além de garantir a “integridade territorial” libanesa. Tradução: a Casa Branca assume o dever de imobilizar as forças israelenses, revertendo a ofensiva contra o Hezbollah. Netanyahu, o notório ausente de Burgenstock, sofre um fracasso estratégico ornamentado por uma humilhação pessoal.

Versalhes, 1919, assinalou o encerramento da hegemonia das potências imperiais europeias. Burgenstock, 2026, tem tudo para entrar na história como momento singular no declínio da influência global dos EUA. Que não se fale em paz: agora, como lá atrás, o silêncio das armas não passa de um curto parêntesis.



Fonte ==> Folha SP

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