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‘Asas de Pano’ debate condição feminina no teatro – 03/03/2026 – Mise-en-scène

'Asas de Pano' debate condição feminina no teatro - 03/03/2026 - Mise-en-scène

Uma ligação telefônica interrompe o silêncio do apartamento. Do outro lado da linha, uma voz familiar: é a mãe, morta há vinte anos. Assim começa o colapso da vida organizada de uma contadora aposentada em “Asas de Pano”, peça de Eliete Cigarini dirigida por Otávio Martins. O que poderia ser apenas mais um drama doméstico sobre o “ninho vazio” ganha contornos de realismo fantástico quando o passado deixa de ser lembrança e se torna presença, utilizando o telefone como um canal doméstico para o extraordinário.

A protagonista construiu uma existência baseada em controle. Exímia em ajustar números ao longo de sua carreira, ela tenta aplicar a mesma lógica contábil à vida emocional. Seu apartamento reflete essa necessidade de ordem: cada objeto em seu lugar, cada sentimento devidamente arquivado. Mas a iminente saída da filha em busca de autonomia desestabiliza esse sistema. É nesse momento de fragilidade que as ligações do além começam a romper a superfície cuidadosamente mantida, trazendo não apenas a voz da mãe falecida, mas revelações que atravessam três gerações de mulheres.

A dramaturgia de Eliete Cigarini constrói um mecanismo preciso onde o humor e a densidade emocional coexistem sem atritos. Os segredos de família não funcionam como meras reviravoltas, mas como estruturas que sustentaram a vida daquelas mulheres por décadas. Quando emergem através das ligações misteriosas, ameaçam desmoronar o edifício de certezas da protagonista. Questões ligadas à adoção, à identidade e à condição feminina em diferentes épocas vêm à tona, exigindo um acerto de contas que transcende o tempo físico.

O trio de atrizes dá corpo a esse encontro geracional. Eliete Cigarini interpreta a mãe que vê seu sistema de controle ruir, Anette Naiman dá vida à avó que retorna do além com suas revelações, e Gabriela Cigarini, filha de Eliete na vida real e estreante nos palcos, vive a filha em busca de seu próprio caminho. Esse espelhamento entre ficção e realidade adiciona uma camada de verdade à cena, onde três mulheres negociam seus lugares no mundo entre o desejo de voar e a necessidade de pertencimento.

A direção de Otávio Martins traduz afetos em linguagem cênica. A luz desenha os espaços da casa e da memória. Marcelo Andrade, com sua cenografia, materializa o apartamento como ninho que protege e sufoca, onde a organização revela o pânico diante da partida da filha. Objetos dispostos com rigor contábil se revelam instrumentos de controle que escondem um vazio.

A sonoplastia de João Pedro Martins transforma o telefone em máquina do tempo. Texturas sonoras contrastam com os diálogos do presente, marcados por disputas de narrativa. A fala que emerge da memória carrega uma verdade que não precisa mais vencer batalhas.

“Asas de Pano” investiga o tipo de existência construída quando um fato fundamental do passado permanece não elaborado. Mostra como o silêncio molda relações, como o não dito se torna parede, como o amor às vezes exige aceitar o vazio do ninho para que possa finalmente transbordar. Através do humor e da poesia, a peça convida o público a reconhecer nas falhas e belezas daquelas mulheres seus próprios dilemas entre manter o controle ou deixar-se atravessar pelo que insiste em vir à tona.

Três perguntas para…

… Eliete Cigarini

Após décadas interpretando textos de grandes mestres, como foi assumir a autoria do seu próprio espetáculo?

Assumir a autoria foi, ao mesmo tempo, um salto e um retorno. Um salto porque exige coragem de se colocar como voz primeira daquilo que se quer dizer. E um retorno porque escrever essa história foi reencontrar inquietações e memórias que sempre estiveram comigo, mas que só agora amadureceram para ganhar forma dramatúrgica.

A motivação veio de uma urgência interna: a sensação de que certas histórias só podem ser contadas quando alcançamos um determinado lugar de escuta e vivência. Com o auxílio da supervisão dramatúrgica de Otávio Martins, pude construir personagens com personalidades diversas, mas que contêm partes de mim.

Qual a importância de discutir a condição da mulher e as “heranças invisíveis” através do humor?

O humor abre portas que o discurso direto não consegue atravessar. Quando o público ri, ele relaxa e se reconhece — é nesse estado que temas delicados podem ser assimilados sem resistência. O humor inteligente não banaliza a dor: ele ilumina contradições e expõe estruturas sociais com precisão, mas sem perder a ternura.

Contudo, temos clareza de que o espetáculo se inscreve no drama. O riso prepara o terreno, mas é a densidade dramática que permanece ecoando no espectador. A estrutura conduz o público a um mergulho emocional profundo, onde o humor não dilui o drama — ele o potencializa, criando contraste, intensidade e verdade.

O espetáculo marca a estreia profissional de sua filha, Gabriela Cigarini. Como a relação real de vocês alimentou as tensões no palco?

Nossa relação sempre se construiu sobre respeito, escuta e harmonia. Justamente por vivermos esse vínculo pautado na transparência, a intenção foi retratar o oposto do que experimentamos em casa. Em “Asas de Pano”, mães e filhas acreditam que certos silêncios protegem — mas essas omissões, ainda que motivadas por amor, deixam marcas profundas. É nesse contraste entre o afeto e a falha que a dramaturgia encontra sua verdade.

Teatro do Núcleo Experimental – rua Barra Funda, 637, Barra Funda, região oeste. Sáb. e dom., 20h. Até 22/3. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br



Fonte ==> Folha SP

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