A Companhia Teatrofilme subverte a lógica das grandes estreias ao iniciar a jornada de “Lia Lia” longe das capitais. Com temporada prevista para a segunda quinzena de março, a adaptação do livro de Caetano Galindo, sob direção de Gabriel Fernandes, percorrerá os centros culturais do Sesi no interior paulista antes de desembarcar nos grandes centros.
O espetáculo marca o encontro inédito entre Bete Coelho e Camila Pitanga no palco, em uma montagem que transita entre as poéticas da memória e as múltiplas camadas do feminino, com assinatura estética de Daniela Thomas. No primeiro ensaio aberto, realizado no iBT (Instituto Brasileiro de Teatro), Bete Coelho compartilhou os bastidores dessa gestação artística.
Texto, corpo e parceria
A união entre Bete e Camila nasceu de forma orgânica em um festival de teatro. “Houve um mergulho profundo e minucioso na palavra e no corpo”, revela Bete. “A Camila aproximou-se com uma generosidade imensa; ela compreendeu a trajetória da nossa companhia e eu, por minha vez, entendi sua linguagem corporal.”
Para Bete, a Teatrofilme — fundada há 17 anos com Gabriel Fernandes e composta por artistas como Lindsay Castro Lima — é um espaço de resistência contra a “liquidação” artística. “Ali fugimos do resultado imediato para fomentar uma estética que inclua o público. O teatro é o lugar onde trocamos nossa imperfeição, sem filtros de redes sociais. É um encontro sagrado.”
A Gênese de “Lia Lia”
O contato com a obra de Caetano Galindo foi quase providencial, ocorrendo antes mesmo da publicação do livro. Bete encontrou na figura fragmentada da personagem Lia um espelho para suas próprias reflexões sobre o tempo e o ofício da atuação.
“Vi em Lia algo acessível e popular — não no sentido de apenas ‘passar o tempo’, mas de melhorar o tempo das pessoas.”
O desafio de transpor a literatura para a cena exigiu uma “cozedura lenta” e um recorte cuidadoso da fragmentação original, garantindo que a fluidez narrativa se mantivesse intacta no palco.
A “casa da memória” de Daniela Thomas
A cenografia de Daniela Thomas foi o elemento que unificou o projeto. “Daniela criou uma ‘casa da memória’: um lugar úmido, onde chove e faz frio, mas que também abriga alegria e beleza”, explica a atriz. O espetáculo retrata a família sob a ótica de uma mulher comum, ressoando tanto na época em que o livro se ambienta quanto nos dias atuais.
O caminho inverso: do interior à capital
A escolha por estrear no interior e seguir para para São Paulo, mais especificamente em Itaquera reflete a sólida parceria com o Sesi-SP. Mais do que utilizar a infraestrutura de ponta das unidades, a montagem de “Lia Lia” se conecta diretamente com a capilaridade dos Núcleos de Artes Cênicas (NAC).
Presentes em diversas unidades do Sesi no estado, os NACs funcionam como polos de difusão e experimentação teatral. A turnê da Companhia Teatrofilme potencializa essa rede ao adotar um processo de intercâmbio vivo: em cada cidade percorrida, duas atrizes locais oriundas dos núcleos serão integradas ao coro do espetáculo.
“É um processo de troca tão rico que dá vontade de levar todo mundo conosco conforme a turnê avançar”, celebra a atriz.
Essa integração transforma a circulação em um ato pedagógico e artístico, unindo a experiência de nomes como Camila Pitanga e Bete Coelho à nova geração de talentos formados pelo Sesi no interior paulista.
Ao fundir o repertório consolidado da Teatrofilme à densidade intelectual de Galindo, “Lia Lia” emerge como uma síntese de vivências. Como bem define Bete Coelho, “no fim das contas, o teatro é essa mistura de vivências, histórias familiares e a busca constante por novas formas de dizer o que sentimos”.
“Teatro, teatro, teatro. E mais vida. No mundo, do mundo, pro mundo. Vida. Teatro. Vida real. Vida”
Fonte ==> Folha SP