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Bilionários de techs agem como cortesãos na posse de Trump – 01/02/2025 – Elio Gaspari

Vale do Silício flerta com Trump - 21/01/2025 - Hélio Schwartsman

O que a China fez com os bilionários americanos das big techs e com Donald Trump foi uma malvadeza histórica.

No dia 20 de janeiro, o novo presidente anunciou em seu discurso de posse: “A partir de agora, terminou o declínio americano”. E prometeu o início de uma “Era de Ouro” para o país.

Entre os convidados, aplaudindo-o, estavam os bilionários Elon (Tesla) Musk, Mark (Meta) Zuckerberg, Jeff (Amazon) Bezos, Tim (Apple) Cook, Sundar (Google) Pichai e Sam (OpenAI) Altman.

Com jeito de quem não queria nada, naquele dia, a empresa DeepSeek, do chinês Liang Wenfeng, soltou seu aplicativo de inteligência artificial R1. Em seguida, republicou um artigo de 22 páginas assinado por 193 autores (todos chineses) e a estrutura do seu programa.

O R1 da DeepSeek foi lançado no dia da posse de Trump de caso pensado. A China já fez coisa parecida em 2023, às vésperas de uma visita da secretária do Comércio dos EUA.

Segundo a DeepSeek, o R1 custou US$ 5,6 milhões. Os programas de inteligência artificial das empresas americanas custam entre US$ 100 milhões e US$ 1 bilhão. O R1 é grátis, enquanto alguns similares americanos cobram dos usuários pelo menos US$ 20 mensais.

No dia 25, o R1 era o aplicativo mais baixado nos Estados Unidos e em outros 50 países. Dois dias depois, as sete grandes empresas americanas de tecnologia, conhecidas como “the magnificent seven” (Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla), perderam US$ 1 trilhão em valor de mercado.

Os CEOs de cinco delas estavam na cena da posse e só a Apple não micou. A fabricante de chips Nvidia, princesinha do mercado de inteligência artificial, tomou a maior pancada, com uma perda de US$ 589 bilhões, a maior da história de Wall Street. Elon Musk perdeu US$ 5,3 bilhões. Como as ações sobem e descem, a Nvidia recuperou parte da queda.

O segredo do R1 estava no fato de que uma unidade de custo que no mercado das big techs vale US$ 15, na DeepSeek ele sai por apenas 55 centavos. Além disso, o R1 é grátis e aberto para programadores pelo mundo afora. A Microsoft e a Dell já incorporaram o R1 às suas plataformas.

Nos próximos meses, artigos e livros contarão o que aconteceu antes do mico de 20 de janeiro. Uma coisa é certa: os bilionários das big techs sabiam que a DeepSeek existia e que não era coisa de chinês em fundo de garagem.

Desde 2023 ela publica seus códigos. Desde maio de 2024 ela mostrava que fazia muito, gastando menos. No mundo a inteligência artificial corria o murmúrio de que a DeepSeek tinha uma “arma secreta”. Em setembro, ela soltou a versão V2.5, que, em poucos dias, ficou entre os aplicativos líderes de inteligência artificial com códigos abertos. A primeira versão do R1 é de novembro de 2024.

Os bilionários americanos acreditaram na própria superioridade. Erraram. Diante da ameaça dos avanços tecnológicos da China, acreditaram na imposição de barreiras comerciais e, durante o governo de Biden, embargaram as vendas de chips. Erraram de novo.

No dia 20 de janeiro, exibiram-se mostrando-se próximos do poder. Violaram a regra da discrição dos magnatas dos verdadeiros tempos dourados dos Estados Unidos. John D. (Standard Oil) Rockefeller, Andrew (U.S.Steel) Carnegie e J.P. Morgan, o do banco, nunca enfeitaram festas de posse de presidentes em Washington.

(Perguntado sobre quais bilionários estavam na posse de Trump, o DeepSeek disse que não tinha informações sobre eventos futuros, esclarecendo que seu conhecimento se estende “até outubro de 2023”. Feita a mesma pergunta ao Google, ele ofereceu dezenas de links e o primeiro dizia: Musk, Bezos e Zuckerberg: bilionários na posse de Trump.)

Momento Sputnik

Na tarde de domingo passado, o guru tecnológico Marc Andreessen descreveu o impacto da DeepSeek sobre o mercado americano: momento Sputnik.

O comentário de Andreessen refletiu o pânico que tomou conta dos Estados Unidos em 1957, depois que a União Soviética colocou em órbita o primeiro satélite artificial, pesando 83 quilos. Em 1961, veio a humilhação. Yuri Gagarin entrou em órbita e revelou: “A Terra é azul”.

Pelo menos nove foguetes americanos haviam explodido, mas o presidente John Kennedy anunciou que os americanos iriam à Lua antes do fim da década.

Na outra ponta, o regime russo não revelava que havia perdido sete foguetes, um astronauta e mais de cem pessoas mortas numa explosão em seu centro espacial, inclusive um marechal. Em 1966, Sergei Korolev, pai do programa espacial russo, morreu durante uma cirurgia. Meses depois o astronauta Sergei Komarov foi carbonizado ao retornar à Terra.

Americanos e russos faziam maravilhas no espaço, mas o jogo virou em 1969. Os foguetes soviéticos continuavam com eventuais falhas e no dia 3 de julho o N-1 explodiu no Cazaquistão, destruindo parte da base de lançamentos.

Duas semanas depois, três astronautas partiram de Cabo Kennedy. No dia 20 de julho, Neil Armstrong fincou a bandeira americana no Mar da Tranquilidade.

A corrida espacial estava terminada e o Sputnik tornou-se coisa do passado.

Começava outra competição, com os americanos na frente. Três meses depois, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou, em segredo, a primeira rede de computadores, chamava-se Arpanet. Era o embrião da internet.

Quem ouviu os bips do Sputnik e acreditou no declínio americano perdeu seu tempo.

2015 x 1936

Em maio de 1936, o matemático inglês Alan Turing publicou na revista da London Mathematical Society seu artigo intitulado “Sobre Números Computáveis”. Nele, prenunciava a “máquina universal”.

Um ano depois, escrevia à mãe, queixando-se de que a revista havia recebido apenas dois pedidos de cópias do artigo. A “máquina universal” de Turing era o computador. Homossexual, ele foi condenado a submeter-se a um tratamento hormonal e matou-se em 1954. Em 2013, um raro exemplar de seu artigo de 1936 foi comprado por 205 mil libras (R$ 1,5 milhão na cotação de hoje). Desde 2024 seu retrato está no verso da nota de 50 libras.

O mundo de 2025 é outro. O artigo acadêmico que descreveu o modelo R1 da DeepSeek saiu no início de janeiro e tinha cerca de 200 autores, todos chineses. Em menos de um mês o aplicativo de inteligência artificial foi baixado mais de 3 milhões de vezes.



Fonte ==> Folha SP

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