A forma como o governo se comportou no mais recente episódio de tarifaço é uma aula de por que o Brasil cresce pouco e permanece desigual.
Como destacado por Lourival Santana, em sua última coluna no Estado de São Paulo, a pressão feita pelos Estados Unidos seria uma oportunidade para o governo quebrar resistências internas e abrir alguns setores superprotegidos, viabilizando uma economia mais dinâmica.
Há mais de sete décadas os brasileiros são reféns dos lobbies de indústrias de bens de capital, automóveis, aço, química, bens de informática e telecomunicações, entre outras. Elas conseguem alta proteção comercial, garantindo lucros extraordinários e mantendo-se vivas, apesar de sua baixa competitividade.
Essa proteção concentra renda e derruba a produtividade e competitividade externa das empresas nacionais que têm que comprar insumos e bens de capital caros e, muitas vezes, de pior qualidade, produzidos pelos fabricantes nacionais protegidos.
É impossível proteger todos os setores ao mesmo tempo: a proteção que dou ao fornecedor de um insumo é uma desproteção criada ao comprador desse insumo.
Deveríamos ter feito propostas de redução de barreiras tarifárias e não-tarifárias, mirando setores em que necessitamos absorver tecnologia externa e reduzir custo de insumos essenciais.
Em vez disso, o governo escolheu o proselitismo eleitoral. O Itamaraty, que deveria estar concentrado em montar uma proposta de negociação, se pôs a emitir notinhas sobre “traidores da pátria” e ameaça de invasão militar dos EUA.
Países como Indonésia e Vietnã aproveitaram a oportunidade e reduziram fortemente as barreiras comerciais aos bens industriais, produtos agrícolas, medicamentos, entre outros. Também derrubaram barreiras não tarifárias.
Essa diferença de mentalidade talvez explique por que nos últimos dez anos a renda per capita real do Vietnã cresceu 67%, a da Indonésia 38% e a do Brasil 9%!
Também houve resposta pragmática da Austrália, abrindo seu mercado de carne. O Reino Unido abriu os mercados de etanol e produtos agrícolas.
Temos muita gordura para queimar. A tarifa média de importação do Brasil é de 7,3%. Na Indonésia é de 1,8%, no Vietnã 1,1%, no México 1,6%, na União Europeia 1,3%. Perto de nós, a Argentina, com 6,4%, também vive a sina de estagnação econômica.
O segundo passo equivocado foi compensar as empresas exportadoras oferecendo crédito subsidiado.
Não cabe ao governo funcionar como empresa de seguro de empreendimento privado. Quem concentrou suas exportações no mercado dos EUA, sabia do risco que estava correndo. Uma regra básica de negócios é diversificar. Ao socorrer, o governo transfere renda dos contribuintes para os acionistas das empresas assistidas, muitas delas pertencentes aos grupos superprotegidos por tarifas. Mais concentração de renda.
O governo escolheu a ajuda via empréstimos subsidiados porque é uma forma de driblar os limites do arcabouço fiscal: paga a conta, aumenta a dívida pública, mas o valor não aparece nas estatísticas da despesa primária. O problema fiscal se agrava, pressionando os juros e dificultando o crescimento.
Quando o governo escolhe quem vai receber empréstimos subsidiados, não necessariamente o dinheiro vai para as empresas mais eficientes e maior potencial de crescimento. O critério de alocação é político. O capital deixa de fluir para as empresas mais eficientes, a produtividade média da economia cai, diminuindo o potencial de crescimento.
Mas a “soberania” e a reeleição estão garantidas.
Fonte ==> Folha SP