Depois de contar a história da “alta funcionária” que havia entrado no serviço público de “paraquedas” (quer dizer, valendo-se de algum favor político), o cantor Blecaute esperava o breque da Orquestra Tabajara para concluir: “Que grande vigarista que ela é”.
Gravada em outubro de 1951, “Maria Candelária“, marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, tornou-se um dos grandes sucessos do Carnaval do ano seguinte. É uma daquelas músicas que, se pescadas no rio do tempo e escaladas para embalar um bloco de hoje, ressurgem sem rugas no rosto e de corpinho enxuto, como se tivessem sido compostas ontem.
Maria Candelária chegava para trabalhar ao meio-dia. A uma da tarde ia ao dentista, às duas ao café, às três à modista. Antes das quatro assinava o ponto e se mandava. Pensando bem, para os parâmetros atuais, era uma vigarista modesta. Não tinha direito à licença compensatória, medida aprovada para funcionários da Câmara e do Senado, que poderão ter um dia de folga a cada três trabalhados.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os três Poderes revisem e suspendam os penduricalhos do serviço público não previstos em lei. Nada mais carnavalesco que a palavra penduricalho, cujos sinônimos, de acordo com o dicionário Houaiss, são pingente, balangandã, berenguendém, berloque e, não por último, condecoração honorífica. Na gíria, penduricalho também é usado para se referir ao pênis, membro pendente como certos funcionários.
O significado da palavra extrapola a simples folia. Encobre uma imoralidade que sintetiza a prática da boquinha e gera o estereótipo de que o funcionário público não faz nada e ainda ganha por fora. Uma visão que mistura realidade com preconceito. A culpa é de quem faz da administração pública uma propriedade particular, distribuindo benesses que elevam os salários acima dos tetos constitucionais.
Segundo especialistas, a farra com pagamentos extras do tipo auxílio-peru e auxílio-panetone custa em torno de R$ 20 bilhões por ano.
Fonte ==> Folha SP