Antes de parar de comparar seu processo de superação amorosa, gostaria de te convidar a interromper algo ainda mais fundamental: a idealização do tal “processo de superação”. É a partir desse falso entendimento —cheio de lugares comuns e autocobranças que se impõem quando o outro nos falta— que muitos de nós concluímos que “ainda não superamos” e, por isso, nos sentimos paralisados num limbo emocional, enquanto avaliamos os outros corações como aqueles que já habitam novos paraísos particulares, afinal souberam “seguir em frente”.
O que determina, afinal, uma superação “bem sucedida”? O senso comum rapidamente a traduz como sinônimo de recomeçar, dar a volta por cima, desapegar, deixar pra trás. Vale aqui questionar alguns dogmas dessa religião da “virada de página”: “se até agora não me envolvi com ninguém é porque aquela ainda é ‘A’ pessoa”; “se a pessoa já está com outra é porque te superou”; “superar é não se incomodar com fotos felizes”; “é não sentir saudade, raiva ou dúvida… é não sentir nada”
Clichês perigosos que constroem um ideal impossível: o do apagamento das marcas, do silenciamento das lembranças e dos afetos. Mandamentos que simplificam um processo complexo, não linear e raramente definitivo e fazem com que nos sintamos pecadores por excesso de apego ou amor quando de fato somos apenas humanos com bagagens emocionais que não se descartam —se reacomodam.
Elaborar não é esquecer, é ressignificar. Enquanto exigirmos indiferença total diante de alguém que nos transformou tanto, seguiremos assombrados pela ideia de que estamos presos num alguém —quando as fixações que precisam ser flexibilizadas são nossas certezas sobre as etapas do processo, sobre o que significam os novos passos do outro e sobre os papéis que revivemos com a morte desse amor.
Quando estamos perdidos, sem respostas ou amores, é natural buscar ancoragem em certezas imaginárias. Supomos saber exatamente o que significam os novos movimentos do outro: o novo relacionamento, as viagens, a vida mais agitada. Como se toda transformação fosse prova da distância afetiva definitiva entre nós —e também da nossa paralisia emocional, cruelmente contrastada com o desempenho de coração de atleta do outro. Será? Quem garante que esses movimentos não sejam tentativas de fuga? Ou que a rapidez não revele mais uma compulsão à repetição do que cicatrização? Não dá pra saber.
Mas o vazio das certezas —que nunca foram absolutas, mas pareciam quando estávamos juntos— nos leva a projetar os piores cenários, só para ter algo a que nos agarrar. Será mesmo que é nessa ilha do abandono que queremos morar, apenas porque alguma morada parece mais quentinha do que encarar as marés de estar à deriva?
Vejo com frequência um esgarçamento do tempo da cicatrização, que vira mais um looping de melancolia do que um cuidado com o coração partido. Acreditamos que primeiro precisamos “estar bem” para só então voltar à vida e aos vínculos. Mas Freud, em “Luto e Melancolia”, cita Wilhelm Busch: “no buraco de seu molar se concentra a sua alma” como um alerta: no estado melancólico, toda nossa libido se concentra na dor do objeto perdido e, acreditando que estamos focados em cuidar sozinhos de nossas dores, não nos damos conta de que enquanto mantemos toda a atenção na ausência, a vida se esvazia (o que só reforça falácias como “ninguém vai se interessar por mim como ele”).
A saída da melancolia se dá em relação —não numa autocura. E aqui não se trata de novas relações românticas, mas nos recursos que surgem quando nos colocamos no mundo como errantes e não como errados.
Minha avó Glorinha, protagonista do primeiro divórcio do Rio de Janeiro, me conta que “superou” indo andar na orla. “Me levei pra andar, minha filha. Ver gente triste, gente feliz, gente junta e sozinha. Ver que eu era capaz de, ainda triste, despertar sorrisos com quem puxava um papo interessado tomando coco no quiosque. Ver que minhas emoções não impediam meus movimentos.” Ela saía sem saber exatamente para onde, e também sem se cobrar estar exatamente plena.
Não se cobre esquecer, apagar, ser indiferente. Mas convide-se a não ficar aprisionado no papel da traída ou do que não vinga. Talvez o mais difícil de superar não sejam os amores, mas as posições simbólicas que repetimos. E se você pudesse ocupar outra posição hoje? Ouse ser atraída que também é amiga querida, curiosa, melancólica e viva. Um caleidoscópio de emoções múltiplas e incoerentes.
Ao invés de esperar que os sentimentos desapareçam, crie novos cômodos para o incômodo e convide-se a ser Glorinha: andar, andar, andar. No movimento, a dor pode conviver com o maravilhamento e o prazer. Não espere superar para se vincular. Peça olhos emprestados, pergunte: “como você me vê?”. Anote, fotografe os pequenos bons momentos, crie seu pequeno dicionário amoroso, sua caixa de primeiros socorros.
A superação talvez não seja chegar a um lugar, mas aprender a caminhar sem se abandonar e sem esperar abandonar completamente os sentimentos incômodos.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP