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Entre a denúncia e o ideal, a dramaturgia agoniza – 07/05/2025 – Opinião

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Tem sido recorrente, no teatro, mas também no cinema e na TV, que os(as) autores(as) criem as suas “personagens” ou “figuras de ficção” mais como porta-vozes de discursos de denúncias e de ideais do que como seres que se expressam por meio de suas ações, o que, a meu ver, é a vocação primordial da dramaturgia.

A palavra “dramaturgia”, originária do grego, remete à “escrita da ação”. Trata-se de um tipo de escrita específica, feita para ganhar relevo nos palcos e nas telas, mediante um texto (“peça de teatro”, “roteiro de cinema” ou “roteiro de TV”) que salta do papel para tornar-se ação. Em outras palavras, é uma arte performática, que se realiza com atores e atrizes que utilizam seus corpos e vozes como instrumentos de criação, mimetizando o comportamento humano, das mais variadas formas.

Para a dramaturgia se desenvolver plenamente, num amplo espectro de tradições e de processos de criação, de modo a incorporar as mais recentes tendências e estilos, creio que dois movimentos concomitantes precisam ser estimulados, na escrita teatral, cinematográfica e televisiva contemporânea.

Primeiro, um incentivo à criação de imaginários, com estruturas dramatúrgicas que se relacionem com a realidade sem, no entanto, se submeterem a ela, considerando-se o(a) autor(a) um(a) espécie de “demiurgo(a)”, criador(a) de mundos, por meio das ações das “personagens” ou “das figuras de ficção”. A maneira como um(a) autor(a) de teatro, de cinema ou de TV interpreta a realidade se revela mais pelo encadeamento das ações do que pelas ideias que ele(a) pretende transmitir à revelia das “personagens” ou das “figuras de ficção”.

A segunda forma de fortalecer a linguagem da dramaturgia, amalgamada à primeira, é refinar a criação dessas “personagens” ou dessas “figuras de ficção” para que alcancem a estatura de seres autônomos, segundo certa visão de mundo, com contextos bem delineados, sugerindo as forças que influenciam esses contextos, sejam elas “deus”, o “destino”, a “economia”, a “política”, o “inconsciente”, os “remédios”, os “genes”, a “cultura” etc., conforme cada ênfase autoral.

Tal arte nos proporciona, como queria Hamlet, um confronto com o espelho, pois cada (tele)espectador(a) pode reconhecer a si mesmo(a) e/ou o(a) “outro(a)”, cabendo aos(às) autores(as) nos mostrarem como isso se opera, a cada temática, estética ou gênero dramatúrgico.

A dramaturgia é complexa, justamente,por ser essa linguagem que nos lança no âmago das ações, sem deixar de nos fazer conhecer ou ao menos intuir o status quo que nos rodeia.

Não me parece ser da natureza da dramaturgia responder aos dilemas vividos pelas “personagens” ou pelas “figuras de ficção”, mas sim, como queria Tchekhov, “fazer as perguntas certas” para engajar o público nas respostas.

É convidando-nos a refletir sobre as nossas ações e as consequências delas que a dramaturgia pode colaborar com o desenvolvimento do indivíduo e da coletividade.

Não se trata de uma linguagem responsiva como a ciência, a filosofia ou a sociologia, mas me parece ser a mais condizente com a condição humana, repleta de incertezas, contradições e condicionantes.

A dramaturgia é uma arte fascinante por ser bem próxima da vida, mas também por sua dimensão pública, visando a construção de uma sociedade democrática ao considerar, de forma equânime, a diversidade autoral.

Mas ela só cumprirá esse papel se o(a) autor(a) não se preocupar em denunciar ou idealizar, por intermédio das “personagens” ou das “figuras de ficção”, o que deveríamos concluir por nós próprios, nos instigando a assumir, em última instância, a responsabilidade por nossas ações no mundo.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

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