Jeffrey Epstein foi um criminoso da pior espécie, monstro. Predador sexual, pedófilo, articulador de redes de abusos, protegido por dinheiro, conexões políticas e uma longa cadeia de omissões institucionais. Houve crimes, houve vítimas e houve impunidade.
Seria de esperar que isso bastasse para manter o debate no terreno dos fatos. Mas uma parte preferiu abandonar essa lógica para deslizar a complexidade do caso para uma fantasia conspiratória na sua forma mais tosca e medieval: a mitologia antissemita.
O sociólogo Jessé Souza foi um deles. Em vez de aprofundar responsabilizações concretas, tratou o caso como “prova” de uma suposta conspiração judaica global e atribuiu ao “lobby judaico” as atrocidades cometidas por Epstein.
É o velho mecanismo com nome e história: o judeu como explicação para a degradação do mundo, como controlador do dinheiro, do poder, da mídia (se fosse controlada, será que estaríamos vivendo essa onda de antissemitismo moderno disfarçado de antissionismo —o “antissemitismo do bem”?).
Transformar os crimes de Epstein em um complô judaico não revela nada sobre Epstein, revela muito sobre quem faz isso.
Jessé Souza se retratou. Mas não explicou. Trocar “judeu” por “sionista” não muda a lógica do argumento, apenas muda o rótulo. Quando se acusa Israel de ser engrenagem de uma conspiração judaica planetária, e o sionismo, um projeto de domínio judaico global, não estamos diante de antissionismo, mas do velho antissemitismo com uma nova roupagem.
O sociólogo, que também é professor, foi didático: deu uma aula magna da definição clássica do que é antissemitismo. Frase por frase.
A tese equivaleria a dizer que a culpa do Epstein não é culpa do Epstein; tão ingênuo quanto convém à tese, Epstein teria sido apenas a marionete de um poder difuso.
Epstein não foi movido por sionismo. Foi movido por acesso, influência e depravação moral. Não viveu nem se comportou como alguém comprometido com o Estado judeu, seus rastros apontam para outros lugares.
Foi próximo de círculos sauditas ligados a Mohammed bin Salman, circulou entre figuras do Golfo, de Wall Street, do Vale do Silício, da realeza europeia. Não havia lealdade a qualquer serviço de inteligência, havia, sim, um padrão: gravitar em torno do poder, qualquer poder.
Quando se inventa um inimigo totalizante, abandona-se a análise e abraça-se o mito. Mitos não trazem verdades, não fazem justiça, não protegem, apenas reafirmam preconceitos. E, no caso concreto, produzem um efeito perigoso: enfraquecem o enfrentamento de uma pauta urgente e atual. Violência sexual e de gênero é problema nosso, cotidiano, estrutural. Não começa nem termina com Epstein.
Quando pessoas como Jessé Souza recorrem a estereótipos, não estão fazendo uma análise honesta, estão capitalizando em cima de preconceitos. Isso é oportunismo.
Delírios não podem soterrar o problema nem desviar a atenção do que realmente importa: o método, o medo, o descrédito e a exposição das vítimas, os acordos por debaixo do pano, as instituições comprometidas. A rede é grande demais para caber em fantasia de conspiração.
Crimes sexuais não dependem apenas de predadores, dependem de ambientes que os tornam possíveis. Enquanto se caça culpados externos, as engrenagens reais seguem girando, abrindo alas para novos Epsteins.
Bom Carnaval!
Fonte ==> Folha SP