A pedidos, comento o caso Erika Hilton. Exceto pelo aspecto guerra cultural, nem acho que haja uma controvérsia real aí. Não há dúvida de que a deputada pode presidir a Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Câmara. E, para prová-lo, não é preciso mais do que lembrar que uma comissão que cuide dos direitos das crianças não é e nem pode ser presidida por uma criança.
Sob o sistema de democracia representativa, qualquer deputado regularmente escolhido para desempenhar uma tarefa tem, mais do que o direito, o dever de fazê-lo. E as delegações não param nisso.
Cada um dos 70 deputados paulistas representa todos os 46 milhões de habitantes do estado.
Isso vai um pouco contra o discurso identitário que busca vincular a possibilidade de representação a uma experiência partilhada: só mulheres falam por mulheres; só gays podem representar gays etc. Eu receio, porém, que, se levarmos a ferro e fogo essa ideia, apenas a democracia direta seria legítima, já que cada experiência individual é única.
No mérito, fecho com transexuais. O Estado existe para favorecer a busca por felicidade. Cada cidadão deve ir atrás daquilo que deseja, desde que não coloque terceiros em perigo real. Se uma pessoa se sente melhor vivendo um papel de gênero diferente daquele que a fusão dos gametas lhe designou, não vejo como isso possa ser objetivamente uma ameaça.
Está claro, porém, que nem todo mundo precisa pensar como eu. Se alguém considera que transexuais violam a lei de Deus, da natureza ou criam dificuldades práticas em competições esportivas, cadeias ou na Previdência, deve ser totalmente livre para articular suas objeções. Outra regra de ouro da democracia liberal representativa é que nenhum debate de ideias deve ser interditado, ainda que possa causar sofrimento psicológico a algumas pessoas.
Nas sociedades complexas e multiculturais em que vivemos, ou aceitamos que a liberdade, que deve ser ampla, tem como contrapartida a tolerância, ou inauguramos a guerra de todos contra todos.
Fonte ==> Folha SP