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Fascismo de Mussolini dividiu comunidade italiana em SP – 17/02/2026 – Andanças na metrópole

Grupo numeroso de homens, mulheres e crianças posam em frente a um prédio de tijolos com janelas altas. A maioria veste roupas simples e antigas, típicas do início do século 20, incluindo aventais, chapéus e vestidos longos. O chão é de terra e o cenário sugere ambiente de trabalho ou comunidade operária.

A partir de meados da década de 1920, os italianos que viviam em São Paulo e em todo o Brasil sentiram aumentar a pressão do governo de Benito Mussolini na Itália para que se convertessem ao fascismo.

Naquele momento, consolidado no poder, o ditador queria organizar e disciplinar as colônias de imigrantes italianos que viviam em outros países. O projeto era conquistar adesões, em especial no movimento operário e entre os jovens, formar núcleos extremistas e ter embaixadores do regime na América do Sul.


Para isso, Mussolini contava com o controle da imprensa que falava para a comunidade e também de escolas e outras instituições compostas por italianos na cidade. Um de seus alvos foram os jornais da colônia, como o Fanfulla, o mais importante deles a aderir ao pensamento totalitário. Outros diários, como o bilíngue La Fiamma, nasceram para promovê-lo. E o Clube Palestra Itália, hoje Palmeiras, enfrentou uma crise entre fascistas e antifascistas.

O primeiro estrategista da promoção do fascismo no exterior era o político Giuseppe Bastianini. Ele veio várias vezes ao Brasil atuando como diplomata e circulando pelos corredores do poder. Obedecia ordens diretas de Mussolini. Colocou o consulado de São Paulo para trabalhar pelo regime totalitário e promover reuniões, conferências e comícios.

Outro meio de aumentar a influência sobre os italianos foi criar organizações de juventude e associações de imigrantes em São Paulo e no interior, como a Balilla e a Societá Italiana di Mútuo Soccorro Gabriele D’Annunzio. Todas promoviam ações sociais e faziam propaganda do pensamento de Mussolini. Funcionavam em São Paulo os Fasci Italiani di Combattimento, núcleos de propaganda e controle social.

A comunidade italiana na cidade em 1926 era de cerca de 160 mil habitantes, 20% da população total. Estava dividida ideologicamente, mas não há relatos de grandes conflitos. A violência só eclodiria na década seguinte, com o surgimento da AIB (Ação Integralista Brasileira), movimento de extrema-direita ultranacionalista.

Muitos italianos eram comunistas, anarquistas ou socialistas. Ativos politicamente tratavam de lutar para conter o avanço do pensamento fascista nos núcleos operários e nos bairros da colônia. Várias organizações seriam criadas com esse objetivo, como o Comitê Antifascista, da Federação Operária de São Paulo, e a Frente Única Antifascista. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) formou o Comitê Antiguerreiro.

Os italianos milionários de famílias como Francesco Matarazzo e Rodolfo Crespi tinham afinidades com Mussolini. Matarazzo se encontrava pessoalmente com ele e fazia doações para o regime.

A antiga sede das Indústrias Matarazzo, no viaduto do Chá, onde funciona hoje a Prefeitura de São Paulo, tem um triplo eme enigmático na sua fachada, à direita, na altura do terceiro andar.

Segundo uma versão da história, MMM seriam as iniciais de Matarazzo, Mussolini e Marcello, de Marcello Piacentini, arquiteto do prédio e figura proeminente do fascismo na Itália, onde foi encarregado de projetar a Exposição Universal de Roma, que não aconteceu.

A maior marca fascista em São Paulo, porém é o Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico. Ele homenageia os aviadores italianos Francesco di Pinedo, Carlo del Prete e Vitale Zacchetti e o brasileiro João Ribeiro de Barros pela façanha.

Fica próximo da represa Guarapiranga, na zona sul, e foi instalado em 1929. Está decorado com dois “fasci”, feixe de varas dos antigos oficiais romanos, e com uma coluna milenar doada pelo próprio Mussolini. Chegou a ser transferido em 1987 para a avenida Brasil, mas a iniciativa causou polêmica e ele voltou para o endereço de sempre.

O marco inicial da imigração italiana no Brasil é a chegada do navio La Sofia, em Vitória (ES) em 21 de fevereiro de 1874, com cerca de 400 imigrantes. Hoje existem cerca de 15 milhões de italianos e descendentes no estado de São Paulo. É uma longa epopeia que driblou o fascismo e vai ter parte contada numa caminhada cultural, dia 28, no Museu da Imigração, promovida pelo Iicsp (Istituto Italiano di Cultura de São Paulo).



Fonte ==> Folha SP

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