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Fraudes digitais substituem violência nas estradas e criam crise silenciosa no transporte de cargas brasileiro

Clonagem de documentos, falsos motoristas e falhas operacionais ampliam prejuízos bilionários e expõem fragilidade dos controles internos no setor logístico

O roubo de cargas no Brasil está passando por uma transformação profunda. Enquanto os assaltos tradicionais em rodovias mostram desaceleração nos últimos anos, cresce de forma acelerada um modelo de crime mais sofisticado, silencioso e difícil de rastrear: as fraudes digitais e operacionais dentro da cadeia logística.

O problema já preocupa transportadoras, seguradoras e operadores logísticos em todo o país. Segundo levantamento divulgado pela NTC&Logística, o Brasil registrou cerca de 8,5 mil ocorrências de roubo de carga em 2025, com prejuízo direto estimado em aproximadamente R$ 900 milhões. Apesar da queda de 16,7% nos registros em comparação ao ano anterior, os dados oficiais podem não capturar integralmente o avanço das fraudes operacionais e digitais, já que muitos casos envolvem desvios sem violência física e nem sempre entram nas estatísticas tradicionais de roubo de carga.

A mudança no perfil do crime acompanha a digitalização acelerada do setor logístico e o crescimento das operações terceirizadas impulsionadas pelo e-commerce. Empresas especializadas em gerenciamento de risco logístico, como Nstech e Buonny, vêm alertando o mercado para o aumento de fraudes envolvendo falsos motoristas, clonagem de documentos e golpes no agenciamento de cargas.

Na prática, criminosos conseguem assumir fretes de forma aparentemente regular e desaparecem com mercadorias de alto valor antes mesmo que a empresa identifique inconsistências operacionais.

Para Huérinton Dal Magro, especialista em governança corporativa, eficiência operacional e gestão estratégica no setor logístico, o avanço dessas fraudes revela uma fragilidade estrutural dentro das operações brasileiras.

“Durante muitos anos, o setor concentrou seus investimentos na proteção física das cargas, rastreamento e segurança armada. Hoje o risco migrou para dentro dos sistemas, dos processos e da validação operacional. O criminoso explora falhas cadastrais, ausência de integração de dados e vulnerabilidades internas das empresas”, afirma.

Com mais de duas décadas de experiência em empresas como Transportadora Plimor, Transportes Translovato Ltda, Frozilog Soluções Logísticas e Irapuru Operador Logístico, Dal Magro acompanhou de perto a transformação tecnológica da logística brasileira e os novos riscos criados pela expansão acelerada do setor.

Segundo ele, a terceirização crescente das operações aumentou significativamente a exposição das transportadoras.

“O setor ganhou escala muito rapidamente. Houve aumento da capilaridade, crescimento das operações pulverizadas e maior dependência de parceiros terceirizados. Em muitos casos, o crescimento operacional não veio acompanhado da mesma maturidade em compliance, validação documental e inteligência de risco”, diz.

Segundo a CNT, o transporte rodoviário responde por aproximadamente 65% da movimentação de cargas no Brasil, mantendo forte dependência da economia nacional em relação às estradas, o que amplia o impacto sistêmico dessas perdas sobre indústria, varejo e abastecimento.

Além do prejuízo imediato, as fraudes acabam pressionando toda a cadeia econômica. O aumento do risco operacional encarece seguros, eleva o valor do frete e reduz margens já pressionadas pela inflação logística e pelos custos financeiros elevados.

Para Huérinton Dal Magro, parte relevante da vulnerabilidade do setor logístico está ligada à fragilidade dos próprios processos internos das empresas. Segundo ele, muitas transportadoras ainda operam com estruturas pouco integradas, baixo nível de rastreabilidade e controles insuficientes para o atual nível de sofisticação das fraudes.

“Hoje existe uma combinação perigosa entre crescimento acelerado das operações e deficiência nos mecanismos de controle. Muitas empresas ainda apresentam falhas importantes na homologação de motoristas, agregados e parceiros logísticos, além de operarem com sistemas fragmentados e baixa integração entre áreas operacionais, financeiras e de gerenciamento de risco”, afirma.

Dal Magro destaca que a ausência de monitoramento em tempo real e a baixa rastreabilidade documental dificultam a capacidade de reação diante de desvios e aumentam a exposição a fraudes estruturadas.

“Quando a empresa não possui visibilidade completa da operação, perde capacidade de antecipação. Em muitos casos, informações críticas ficam descentralizadas, o que cria brechas para inconsistências cadastrais, falhas de compliance e operações fraudulentas passarem despercebidas”, diz.

O avanço da inteligência artificial, biometria, validação automatizada de documentos e torres de controle logístico deve acelerar nos próximos anos como resposta ao crescimento dessas fraudes. Ainda assim, o especialista alerta que tecnologia isolada não resolve o problema sem processos estruturados e cultura de controle.

“O desafio atual não é apenas proteger caminhões nas estradas. É impedir que o crime entre pela porta da frente da operação utilizando falhas internas, engenharia social e brechas digitais. As empresas que não evoluírem seus controles terão dificuldade crescente para operar com previsibilidade e competitividade”, conclui Dal Magro.

 

 

 

 

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