Como bom malufista que foi, o pai de Renan Santos odiava o PT. No caso de seu filho, hoje pré-candidato a presidente, a resposta é complicada.
Para Renan, legendas como PL e PSD são de aluguel, enquanto o PT é partido no sentido clássico. Tem teses compartilhadas, produção intelectual, atividade política e militância.
Renan se inspirou na energia da política estudantil da Faculdade de Direito da USP para fundar o MBL. Uma paixão similar marca a militância emebelista nas redes sociais —ela que bagunça a monocromia do debate político atual. Intelectualizado e mais à vontade nos bastidores, Renan pode ser comparado a Zé Dirceu. Como o ex-ministro, sobrevivente da ditadura, ele coleciona batalhas.
Em 2003, após uma decepção na política estudantil, Renan trocou a vida de universitário e aspirante a músico pelo negócio familiar de recuperação de empresas falidas. Foram dez anos de jogo bruto: ganhar dinheiro via fórceps, demissões, cortes de gastos, briga com sindicatos e pressão de credores.
Em 2013, policiais corruptos plantaram drogas para extorquir R$ 300 mil da empresa familiar. Ele acionou em segredo o Ministério Público. Com escutas no corpo, foi entregar o pagamento e criou o flagrante para prender a quadrilha.
Essas experiencias o moldaram. Não tem almoço grátis. Como ONG, o MBL trocou a dependência de doações pela mentalidade empresarial. Mantém-se vendendo revistas e cursos, fazendo vaquinhas e monetizando sua presença online.
A guerra aberta do MBL com o bolsonarismo explicitou a existência de dois polos na direita: o dos mais velhos, de cultura provinciana, moralmente conservadores e com um pé no centrão; e o de jovens cosmopolitas, de mentalidade empreendedora, alguns fascinados por IA e psicodélicos e com a ambição libertária do Vale do Silício de reinventar o mundo.
O recém-criado partido Missão pode ser descrito como o PT da direita pela militância aguerrida dos primeiros anos. É intransigente para expor a corrupção na velha política, inclusive no próprio campo ideológico.
Do ponto de vista da comunicação, o PT está para o cinema como o Missão está para a internet. A figura do marqueteiro regendo seu exército dá lugar à mentalidade “faça você mesmo” de programadores e influenciadores em um ambiente que ainda é muito masculino.
Assim como o PT em relação a Cuba e Venezuela, o Missão flerta com o autoritarismo versão 2.0 de El Salvador. Ideologicamente, seu caldo cultural tem como base o etos imigrante da vitória pelo trabalho, temperado por social-democracia, Bope e mundo geek. Vejo com curiosidade como o movimento atrai adolescentes para debater o Brasil, é pedra no sapato do centrão e denuncia corajosamente ministros do STF.
Renan e outros como Kim Kataguiri, pré-candidato a governador de São Paulo, são nerds da política. Seu partido, percebido como ingênuo e sem experiência, é uma startup compacta, agressiva e ágil. Exalam autoconfiança. Um de seus superpoderes é atuar fora do campo de visão.
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Fonte ==> Folha SP