Nos últimos anos, morar de aluguel no Rio de Janeiro tem se tornado cada vez mais difícil. O aumento dos preços empurrou milhares para bairros periféricos. Segundo a Fundação João Pinheiro, em 2024 o estado registrou um déficit habitacional de 544.275 domicílios, o maior desde 2016. Só na Região Metropolitana, são 409.640. Famílias que comprometem mais de 30% da renda com aluguel representam 58% desse total.
Essa crise não é acaso. É resultado de um modelo desregulado, que transforma moradia em investimento.
Desde 2021, o Rio virou um grande hotel. Em 2023, mais de 28 mil imóveis estavam no Airbnb, com diária média de R$ 306 e taxa de ocupação de 57%. Isso representa uma renda de mais de R$ 60 mil anuais por imóvel. Já o aluguel tradicional de um imóvel de 70 m², com valor médio de R$ 3.500, rende cerca de R$ 42 mil por ano. Resultado: muitos proprietários preferem alugar por temporada a firmar contratos residenciais de longa duração.
Assim, milhares de residências deixaram de estar disponíveis para moradia permanente. Na Zona Sul, por exemplo, a oferta de imóveis para locação tradicional caiu 27% em dois anos. Mais turistas, menos moradores. E o fenômeno se espalha: entre 2021 e 2024, o número de imóveis no Airbnb cresceu 80%. Bairros como Ipanema, Copacabana, Leblon, Barra da Tijuca e Tijuca foram os mais afetados.
O impacto logo se refletiu no bolso: o valor médio do aluguel passou de R$ 40,16/m² em 2023 para R$ 45,79/m² em 2024, alta de quase 20% em um ano —repetindo a tendência do ano anterior. A lógica do mercado é simples: menos oferta para quem precisa morar significa aluguel mais caro.
O resultado é um deslocamento populacional forçado. A cidade empurra seus moradores para longe, muitas vezes para regiões já precarizadas, como as zonas Norte e Oeste, que sofrem com falta de escolas, postos de saúde e transporte público. Enquanto isso, o mercado imobiliário comemora. Mas o que vendem como “desenvolvimento” é, na prática, exclusão e precarização.
E o poder público? Segue omisso. Enquanto cidades como Lisboa, Barcelona e Nova York regulam plataformas como o Airbnb, o Rio permite que o mercado dite as regras. Resultado: especulação imobiliária, gentrificação e desigualdade crescente.
Regular o Airbnb é urgente, mas não o suficiente. É preciso frear a lógica que transforma moradia em ativo financeiro. Isso exige medidas como limitar o número de imóveis por CPF/CNPJ nas plataformas, proibir locação turística de imóveis inteiros em áreas com déficit habitacional, aplicar IPTU progressivo sobre imóveis vazios e garantir a função social da propriedade.
Enquanto o Rio for quintal de especulador, o povo vai continuar sendo empurrado para longe. A cidade precisa ser para quem vive nela, não apenas para quem lucra com ela.
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Fonte ==> Folha SP