O avanço da inteligência artificial (IA) pode causar temor, alimentar charlatanismos ou até inspirar entusiasmo diante das inovações trazidas pela tecnologia. A chegada da computação quântica transforma esse cenário, elevando essas questões a um patamar épico —um marco já alcançado pela Microsoft, embora seu lançamento comercial ainda esteja distante.
Diferentemente dos sistemas tradicionais que operam em zeros e uns, a computação quântica trabalha com superposições, acessando possibilidades simultaneamente, em vez de testá-las uma a uma. É cada vez mais difícil processar tantas novidades. No mundo do cinema, surgiu o conceito de “cineasta de prompt”. O cinema, historicamente um processo coletivo tanto na sua produção quanto na sua apreciação, caminha perigosamente em direção à individualização. Com novos aplicativos, já é possível descrever uma cena e vê-la ser gerada instantaneamente. A próxima novidade é uma ferramenta que possibilita essa criação em tempo real.
A esperança fica com o cinema independente, que consegue aproveitar essas inovações para reduzir custos, viabilizando produções e democratizando o acesso à cultura. Antigamente, obras de cineastas como Fellini eram apreciadas coletivamente em cinemas de rua; hoje, a grande tendência é a maratona de produções em casa, seja em família, seja sozinho, com a tela do celular como companheira.
Segundo especialistas como Eric Schmidt, o avanço da IA pode representar um aumento dramático no consumo energético. Modelos de IA como o GPT-3 consomem até 500 mL de água a cada 10 a 50 prompts e data centers de apenas 1 megawatt podem usar mais de 25 milhões de litros por ano —o equivalente ao consumo diário de 300 mil pessoas. Até 2027, a infraestrutura computacional global demandará entre 4,2 bilhões e 6,6 bilhões de metros cúbicos de água.(segundo o Fórum Econômico Mundial e o jornal Financial Times).
Qual a alternativa para o profissional de cinema senão se adaptar ou ser “dedetizado”? Essa lógica pode ser estendida a outras profissões —designers, publicitários, jornalistas, professores. A ameaça é clara: “Você ainda não usa IA?”. Ao somarmos esses fatores —automação criativa, consumo descontrolado de recursos e centralização do poder computacional—, percebemos o que realmente está em jogo: o esvaziamento constante do coletivo, substituído por uma intermediação homem-máquina, sedenta por insumos finitos, que abala a estrutura da sensibilidade interpessoal. Não faz sentido que a produção artística dependa da exploração de recursos como a amazônia.
Durante um curso do Fórum Econômico Mundial em Stanford, participei de uma aula baseada no estudo “‘Worse’ AI Counterintuitively Enhances Human Decision Making” (IA pior melhora contraintuitivamente a tomada de decisão humana). Dois grupos receberam auxílio de IA: uma “bem calibrada” e outra deliberadamente “exagerada” em confiança. O grupo que interagiu com a IA menos precisa, mas mais confiante, tomou decisões ligeiramente melhores. Usuários tendem a levar a sério conselhos apresentados com alta certeza —ainda que o modelo não seja perfeito. Em contextos colaborativos, portanto, “pior” IA pode impulsionar o desempenho humano, desde que o veredito final continue nas mãos das pessoas.
Sim, a IA pode contribuir para uma maior eficiência —visão romântica que depende da boa vontade de seus controladores. Nossa sensibilidade, aquilo que nos torna humanos —nosso desejo e libido criativa—, tende a ser cada vez mais valorizada apenas em palavras, enquanto se apaga diante do medo, do efeito manada e da falta de senso crítico.
A solução talvez seja frequentar o teatro, espaço que nos convida a continuar pensando sem intermediários cibernéticos.
TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Fonte ==> Folha SP