A recente discussão no Brasil sobre a possibilidade de quebra de patente de medicamentos como a tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro, coloca em evidência um dos maiores dilemas da medicina contemporânea: como equilibrar inovação científica e acesso à saúde de forma responsável, sustentável e baseada em evidências.
Na minha prática clínica e na pesquisa científica, observo que estamos vivendo uma verdadeira revolução no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. A obesidade deixou de ser vista como um problema exclusivamente estético e passou a ser reconhecida como uma doença metabólica crônica, inflamatória e sistêmica, com impacto direto no risco cardiovascular, na saúde cerebral, no sono, na cognição e na longevidade.
Medicamentos como a tirzepatida atuam na fisiopatologia da doença, modulando vias hormonais complexas e promovendo resultados que, até poucos anos atrás, eram possíveis apenas com abordagens invasivas.
Por outro lado, também é essencial compreender que a inovação farmacêutica não acontece por acaso. Ela exige décadas de pesquisa, investimentos bilionários e rigorosos estudos clínicos.
A proteção de patentes, nesse contexto, funciona como um estímulo para que novas terapias continuem sendo desenvolvidas. Não por acaso, o governo federal tem manifestado preocupação de que a quebra de patentes possa gerar insegurança jurídica e afastar investimentos e centros de pesquisa do país. No entanto, limitar o debate apenas à inovação também seria um erro.
O alto custo desses medicamentos restringe o acesso de grande parte da população. Em um país com elevada prevalência de obesidade, isso representa um desafio de saúde pública relevante. A própria discussão no Congresso parte do princípio de que ampliar o acesso poderia reduzir complicações futuras e custos assistenciais associados às doenças metabólicas. Na minha opinião, esse não deve ser um debate ideológico, mas técnico e estratégico. A polarização entre “quebrar ou não quebrar patentes” não resolve o problema.
O caminho mais inteligente envolve soluções intermediárias, como parcerias público-privadas, programas de acesso ampliado, transferência tecnológica, produção local sob acordos regulatórios e estímulo à pesquisa clínica no Brasil. Precisamos proteger a inovação, mas também garantir que a ciência chegue à população.
Outro ponto que considero fundamental é que nenhuma medicação, isoladamente, resolve a obesidade. A medicina moderna exige uma abordagem integrativa, com nutrição, estilo de vida, saúde mental, sono, atividade física e acompanhamento metabólico contínuo. Quando esses pilares são combinados, os resultados são mais consistentes, sustentáveis e duradouros.
Na prática clínica, tenho observado que protocolos metabólicos estruturados promovem benefícios que vão muito além da perda de peso: melhora cognitiva, redução inflamatória, maior qualidade de vida e prevenção de doenças crônicas. Isso reforça que estamos diante de uma nova era da medicina personalizada.
O Brasil precisa amadurecer essa discussão com visão de longo prazo. Precisamos atrair pesquisa, fortalecer a ciência nacional, ampliar o acesso e construir políticas públicas baseadas em dados. Mais do que discutir patentes, precisamos discutir o futuro da saúde, da prevenção e da longevidade da nossa população.