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país tem o 6.º pior ambiente de negócios do mundo

Vai piorar antes de melhorar: reforma tributária "complica" sistema de impostos nos primeiros anos, durante a transição.

Fazer negócios no Brasil é como montar um quebra-cabeça com peças de diferentes tamanhos e formatos – e algumas delas mudando de forma no meio do jogo. O país, que acumula uma série de obstáculos ao empreendedorismo resumidos na expressão “custo Brasil”, ocupa a sexta posição entre os ambientes mais complexos do mundo para empreender, segundo o estudo com 79 países.

O levantamento foi feito pelo grupo holandês TMF, especializado no fornecimento de soluções de apoio para empresas e instituições financeiras. Apenas cinco países são considerados mais desafiadores: Grécia, França, México, Turquia e Colômbia.

O que já é caótico pode piorar: a reforma tributária do consumo, aprovada no ano passado e em fase de implementação até 2032, adicionará novas camadas de complexidade. Isso porque as empresas terão de operar, durante todo o período de transição, sob dois sistemas tributários ao mesmo tempo.

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“Isso demandará uma adaptação muito grande das empresas”, alerta Mauricio Catâneo, country head para o Brasil do TMF Group. “A convivência entre os dois sistemas vai exigir reestruturações completas nos processos contábeis, fiscais e de pagamento de impostos.”

Independentemente da reforma tributária, os desafios relacionados à taxação já vêm aumentando. Até a semana passada, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia feito 24 anúncios de criação ou elevação de impostos – um a cada 37 dias, em média. No último domingo (8), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que iria recuar em parte do recente aumento do IOF, mas em troca anunciou uma série de outras taxações.

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Reforma tributária: simplificação futura, mas um obstáculo no presente

Apesar da promessa de simplificação a longo prazo, o curto e médio prazo reservam mais incerteza, mais risco e mais custo. E não é só a transição tributária que complica: o Brasil já lida com um sistema fragmentado e oneroso, marcado pela sobreposição de tributos federais, estaduais e municipais, frequentes mudanças regulatórias e dificuldades de integração contábil.

Preocupa, também, o despreparo de muitas organizações para esse cenário e o consequente aumento nos riscos de não conformidade, o que pode resultar em “impactos tributários relevantes”, destaca o grupo. O cenário se agrava com a necessidade de maior digitalização. Embora promissora, a exigência de transações em tempo real impõe desafios extras, principalmente às empresas menores e menos estruturadas tecnologicamente.

Custo Brasil além dos impostos: os entraves estruturais do ambiente de negócios

O mercado de trabalho adiciona outra camada ao problema. Pressões inflacionárias, falta de mão de obra qualificada e alta rotatividade dificultam a gestão de equipes e forçam investimentos em retenção e capacitação.

Segundo pesquisa da Hays, hoje 56% das empresas têm dificuldade para encontrar profissionais preparados — dez pontos percentuais a mais que no ano passado. O gargalo é mais grave nos cargos intermediários, onde a escassez de talentos é oito vezes maior que nos cargos executivos.

A infraestrutura e a logística do país também não ajudam. Anos de investimentos abaixo do necessário deixaram marcas profundas no ambiente operacional das empresas, sobretudo fora dos grandes centros.

A responsabilidade pela melhoria desse ambiente recai tanto sobre o setor público quanto sobre a iniciativa privada. No entanto, a situação fiscal do país não inspira confiança. O endividamento público atingiu 76,2% do PIB em abril, maior patamar para o mês desde 2022, e as contas seguem no vermelho há quase dois anos.

“Existe, de fato, um risco de atraso devido à fragilidade da situação fiscal”, diz Catâneo. “O Brasil, historicamente, convive com um grau de incerteza que aumenta a complexidade.”

Apesar desse cenário, ele lembra que há uma grande capacidade da iniciativa privada em influenciar o setor público para direcionar investimentos públicos de forma a apoiar o crescimento econômico.

O paradoxo brasileiro: por que o país ainda atrai investimento estrangeiro?

Apesar das dificuldades, o Brasil ainda consegue atrair investimentos — uma contradição intrigante. Segundo dados do Banco Central, o Investimento Direto no País (IDP) alcançou US$ 69,8 bilhões no acumulado de 12 meses até abril, o melhor desempenho para o mês em dois anos.

Segundo Mauricio Catâneo, country head para o Brasil do TMF Group, há um volume expressivo de consultas de investidores internacionais, canalizadas através dos corredores de comércio, com foco especial nos setores de agronegócio e infraestrutura.

Investimentos robustos estão no horizonte: quase R$ 100 bilhões em projetos de celulose no Centro-Oeste e Sul; cerca de R$ 70 bilhões anunciados por montadoras de veículos em diversas regiões; aportes ainda maiores programados pelo setor de mineração; e projetos de grande porte na área de energia.

Mas essa atratividade, embora real, não diminui o peso da burocracia, nem resolve os entraves estruturais. Fazer negócios no Brasil continua sendo um teste de resistência — e inteligência estratégica. As oportunidades existem, mas alcançá-las exige navegar em um mar revolto de normas, sistemas paralelos e incertezas políticas.

Na disputa por investimentos, o Brasil acaba se beneficiando da stituação mais complexa em outros dois países que estão em um cenário de deterioração da situação política e econômica e que são concorrentes diretos na disputa por investimentos: México e Turquia.

O primeiro deve ser afetado pelas tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump. A projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) é de que os mexicanos enfrentem a primeira retração da economia depois da pandemia da Covid-19. Para a Turquia, a indicação é de quinta queda seguida no ritmo de crescimento.

O ambiente político nos dois países vem se deteriorando nos últimos anos. Relatório da Economist Intelligence Unit (EIU) aponta os efeitos da corrupção e do crime organizado, classificando o México como um regime “híbrido” – ou seja, embora não seja totalitário, também não é inteiramente uma democracia. O país caiu da 50.ª posição em 2010 para a 84.ª em 2024 no ranking da democracia, especialmente após Andrés Manuel López Obrador, populista de esquerda, assumir o poder em 2018.

Na Turquia, a deterioração ganhou força em 2010, sob a liderança do líder populista Recep Erdogan. Também considerada um regime híbrido e classificada na 89.ª posição à época, a Turquia caiu para a 103.ª posição em 2024.



Fonte ==> UOL

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