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Poesia nos Negócios: Onde o Verso Encontra a Engrenagem

Helena Fraga

Nasci poeta. Mas, por um capricho do destino ou uma paixão inexplicável, também nasci apaixonada por carros, por pessoas e pelas histórias que os motores contam. Desde cedo, compreendi que a vida não é uma linha reta, mas um circuito complexo. Lá pelas tantas, no balcão de uma loja, apaixonei-me pelo comércio. Existe algo de profundamente lírico na troca comercial: o encontro entre o que eu posso ofertar e a necessidade genuína do outro. É uma simbiose que exige técnica, mas também exige alma.

Trabalhar no setor automotivo há 45 anos não é apenas uma carreira; é uma vida dedicada à quinta maior indústria do mundo. Ao contrário do que muitos pensam, o setor não é feito apenas de ferro, graxa e borracha. Ele é um ecossistema vivo. A evolução de toda a cadeia produtiva — desde a fundição da matéria-prima até a logística de distribuição de peças e acessórios — implica um domínio técnico rigoroso. É preciso entender de supply chain, de gestão de estoques e de flutuações de mercado. Mas, para mim, cada peça num catálogo de autopeças sempre teve um ritmo, uma função quase poética dentro da harmonia de um motor.

Comecei jovem, com sonhos de menina no varejo automotivo. A poesia, que já habitava em mim desde os 13 anos, foi a minha companheira silenciosa. Durante décadas, vivi o que parecia ser uma dicotomia insolúvel: o dia era feito de números, cálculos, planilhas de Excel, catálogos pesados e o cheiro característico da graxa. Lidei com mecânicos, fornecedores e clientes exigentes sob a luz fria do escritório. À noite, o cenário mudava. O papel aceitava os versos, as estrofes e a subjetividade que o balcão da loja parecia rejeitar.

Sempre me pareceu que eu tentava misturar óleo com água. Profissionalmente, especializei-me, busquei o mestrado, mergulhei na administração da empresa familiar com uma sede de eficiência. Foi no ambiente acadêmico que sofri uma das minhas maiores transformações e, ironicamente, um dos meus maiores equívocos. Aprendi a ler o que “interessa” ao mercado, aprendi a escrever com a linearidade fria que o mundo corporativo exige. Erroneamente, convenci-me de que a poesia não entrava nos negócios. Pouco a pouco, separei as águas. Tornei-me duas: a executiva eficiente e a poeta escondida. Mas o peso de ser metade é insuportável para quem nasceu inteira.

Hoje, olho para trás e percebo que a minha maior força sempre foi o que eu tentei esconder. A “coreografia dos bastidores do supply chain” é, por definição, um poema de inteligência humana. Existe beleza na precisão milimétrica de uma linha de montagem e existe arte na estratégia de marketing que coloca um carro na garagem de uma família. Negócios são, fundamentalmente, sobre conexões humanas. E quem melhor do que um poeta para entender de conexões?

Empreender, especialmente para nós mulheres, é equilibrar-se numa corda bamba. É lidar com a dureza das perdas e danos, com a volatilidade econômica e com o marketing que precisa ser, ao mesmo tempo, atraente e honesto. O setor automotivo é um campo de batalha, mas também é um campo de sonhos. Se Bertha Benz não tivesse tido a alma de uma visionária, onde estaríamos? Em 1888, ela não apenas “pegou um carro”; ela planejou a primeira viagem de longa distância (100 km) para provar ao mundo — e ao seu marido, Karl Benz — que a invenção deles tinha futuro. Ela criou o conceito de test-drive. Ela foi a primeira profissional de marketing direto da história automobilística. Ela não viu apenas ferro; ela viu liberdade.

Não estamos sozinhas. A história é rica em mulheres que usaram a sua sensibilidade para revolucionar a técnica. Florence Lawrence não apenas atuava; ela inventou as luzes de seta e de freio porque se importava com a segurança. Mary Anderson olhou para a chuva e inventou o limpador de para-brisas. Hoje, vemos Mary Barra liderar a General Motors numa transição histórica para os veículos elétricos, e Stella Li posicionar a BYD como uma potência global de energia limpa. O que une todas essas mulheres? A capacidade de ver além do óbvio.

A mulher trouxe uma nova cor ao mundo do varejo e da indústria. Nós transformamos o conceito de empreender em algo mais profundo, focado nos detalhes sutis que fazem a diferença entre uma venda e uma fidelização. A sensibilidade não nos torna fracas; ela nos torna perspicazes. Ela permite que leiamos as entrelinhas de uma negociação e que entendamos que, por trás de cada CNPJ, existe um CPF que pulsa.

É hora da virada de chave. Você sabe que para dar partida no veículo é preciso ligá-lo, esse ano começo uma nova viagem em um carro novo, um zero quilometro último modelo, ainda não sei sua cilindragem ou a potência de seus cavalos, mas, é hora de assumir um novo rumo por uma estrada recém-inaugurada.

Assumo agora o meu novo papel. Não escreverei mais apenas sobre versos abstratos, nem apenas sobre margens de lucro áridas. Vou escrever sobre a intersecção. Vou falar sobre como a estratégia precisa de intuição, como o supply chain precisa de harmonia e como o empreendedorismo feminino é a poesia em ação.

A poesia é vida e, sem ela, o mundo automotivo seria apenas um amontoado de engrenagens sem destino. Com ela, os negócios tornam-se um manifesto de propósito. Sou poeta, sou do setor automotivo e, finalmente, sou uma só.

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