Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Razão a poder de socos – 08/06/2025 – Ruy Castro

Uma placa de mármore branca fixada em uma parede, com texto em letras pretas. O texto menciona um evento ocorrido na tarde de 25 de abril de 1974, quando a PIDE abriu fogo sobre o povo de Lisboa, resultando na morte de quatro pessoas: Fernando C. Giesteira, José J. Barneto, Fernando Barreiros dos Reis e João Guilherme R. Arruda. A placa é uma homenagem de um grupo de cidadãos e foi instalada em 25 de abril de 1980.

Cinquenta anos depois do fato (aliás, 51), não param de sair em Lisboa livros sobre o movimento dos capitães e majores que, em 25 de abril de 1974, derrubou a ditadura que, por metade do século 20, tornou Portugal o país mais atrasado da Europa. É bom que o assunto continue tão vivo, para alertar contra retrocessos presentes e futuros. São livros de todos os ângulos e gêneros. Mesmo para mim, que então morava lá a trabalho, muitos contêm novidades.

Uma delas, a descrição da complexa urdidura militar que permitiu a queda do regime sem que a Pide, a brutal polícia política portuguesa, a percebesse e abortasse. O que podia ter facilmente acontecido com as consultas entre os jovens oficiais sobre se aceitavam aderir —nem todos concordaram, mas ficaram fiéis a seus camaradas e não os denunciaram. Para mim, no entanto, o mais surpreendente foi descobrir que, entre os objetivos a serem tomados na madrugada daquele dia —quartéis, postos policiais, palácios do governo, rádios, aeroportos— não estava a sede da Pide, na rua Antonio Maria Cardoso (por coincidência, defronte ao Consulado do Brasil).

A decisão, a cargo do estrategista do movimento, major Otelo Saraiva de Carvalho, foi a de que, por mais armada, a Pide, impotente diante do aparato do Exército, cairia sozinha. Tudo teria corrido à perfeição não fosse um fator que ele subestimou: a Pide, recordista europeia em prisões, espancamentos e mortes, era formada por homens grosseiros, estúpidos, irracionais. Enquanto todos os objetivos foram tomados sem resistência, sem um só tiro, a Pide abriu fogo contra a multidão que, na embriaguez da liberdade, cercara o seu covil. Quatro populares morreram —as únicas vítimas do 25 de abril.

E era previsível. Quem raciocina a poder de socos, choques elétricos e estupros não será capaz de analisar uma situação e, no caso, vê-la perdida. Reagirá com a única arma que conhece: a ferocidade.

A mesma que alimenta o ódio e as ameaças que hoje tomam as redes sociais em toda parte.



Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

Gestão de riscos deixou de ser assunto das grandes empresas e passou a ser essencial para qualquer negócio
Hiran Castiel transforma memória sefardita e história da Amazônia em livros sobre identidade, sociedade e Brasil
Os 50 jornalistas mais influentes do Brasil em 2026, divididos por região

Leia mais

Dave Bautista mostra músculos para viver Kratos em 'God of War'
Dave Bautista mostra músculos para viver Kratos em 'God of War'
Suspeito de se passar por Luís Castro é preso no Rio após aplicar golpe de R$ 22 mil em jogador do Grêmio
Suspeito de se passar por Luís Castro é preso no Rio após aplicar golpe de R$ 22 mil em jogador do Grêmio
Motoristas deixam de pedir reembolso de 267 mil multas de pedágio free flow em SP
Motoristas deixam de pedir reembolso de 267 mil multas de pedágio free flow em SP
Nestlé vende divisão de vitaminas e suplementos por US$ 1 bilhão
Nestlé vende divisão de vitaminas e suplementos por US$ 1 bilhão
Renan Santos: País tem cenário de 'forte despolitização' e crescimento de Cury foi 'inorgânico'
Renan Santos: País tem cenário de 'forte despolitização' e crescimento de Cury foi 'inorgânico'
Professor salvou a vida de 1.600 alunos durante enxurrada no Nepal
Professor salvou a vida de 1.600 alunos durante enxurrada no Nepal