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Saúde mental deixa de ser benefício e vira indicador estratégico de performance

Crédito: Freepik

Com aumento dos afastamentos por ansiedade, burnout e depressão, empresas passam a tratar o cuidado emocional como KPI e não mais como ação pontual de RH.

A saúde mental deixou de ocupar o espaço periférico dos benefícios corporativos para assumir posição central na estratégia das organizações. O aumento expressivo de afastamentos por ansiedade, depressão e burnout tem impactado diretamente a produtividade, o clima organizacional e a retenção de talentos, obrigando empresas a reverem suas práticas. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que os transtornos mentais estão entre as principais causas de incapacidade no mundo, enquanto números recentes do Instituto Nacional do Seguro Social indicam crescimento significativo de licenças médicas por questões psicológicas no Brasil, especialmente no período pós-pandemia.

O impacto vai além do afastamento formal. O chamado custo invisível do esgotamento inclui queda de produtividade, aumento de erros, conflitos internos, presenteísmo e rotatividade. Equipes sobrecarregadas absorvem funções extras, líderes despreparados ampliam pressões e o ambiente organizacional se fragiliza. Nesse cenário, a saúde mental deixa de ser um tema humanitário isolado e passa a integrar as discussões estratégicas de desempenho.

Para a terapeuta Dra. Helena Rol, o problema não está apenas no volume de demandas, mas na cultura que naturaliza o excesso. “O sofrimento psíquico no trabalho não surge do nada. Ele é construído em ambientes onde metas são inalcançáveis, a comunicação é falha e não há espaço para vulnerabilidade. Se a empresa só age quando alguém adoece, ela já está atrasada”, afirma. Segundo ela, há uma romantização da alta performance que ignora limites humanos. “Quando estar exausto vira sinônimo de comprometimento, o adoecimento passa a ser quase inevitável.”

Nos últimos anos, multiplicaram-se programas de apoio psicológico, canais de escuta anônimos e parcerias com plataformas de terapia. Embora representem avanço, especialistas alertam que iniciativas isoladas não transformam a cultura organizacional. “Uma palestra sobre ansiedade não compensa uma rotina abusiva. Um canal de escuta não resolve se o gestor continua invalidando emoções ou desrespeitando limites”, explica Dra. Helena Rol. Para ela, a diferença entre ação pontual e política estruturada está na integração do tema à estratégia da empresa. “Saúde mental precisa estar conectada a metas, indicadores e avaliação contínua. Não pode ser um projeto de marketing interno.”

A mudança também é impulsionada por novas gerações de profissionais, que colocam equilíbrio emocional e ambiente saudável como critérios decisivos na escolha e permanência em um emprego. Cultura organizacional, flexibilidade e segurança psicológica tornaram-se fatores competitivos. “As novas gerações não querem apenas salário. Elas querem coerência entre discurso e prática. Se a empresa fala de bem-estar, mas mantém uma cultura de medo e pressão constante, a incoerência é percebida rapidamente”, observa a terapeuta.

Dra. Helena Rol

Nesse contexto, empresas começam a medir indicadores como absenteísmo por transtornos mentais, índice de engajamento, turnover e percepção de segurança psicológica como parte de seus KPIs. A pergunta deixou de ser se vale a pena investir em saúde mental e passou a ser quanto custa ignorá-la. “Quando a empresa entende que saúde mental impacta diretamente o resultado, ela deixa de enxergar o cuidado como custo e passa a vê-lo como investimento”, reforça Dra. Helena Rol. Para ela, a prevenção é o caminho mais eficiente. “Cultura de prevenção significa criar um ambiente onde falar sobre emoções não seja sinal de fraqueza e onde líderes sejam preparados para reconhecer sinais de sofrimento antes que ele se torne afastamento.”

Ao transformar o cuidado emocional em indicador estratégico, as organizações redefinem o próprio conceito de performance. Alta performance sustentável não se constrói com exaustão permanente, mas com equilíbrio, clareza de processos, liderança preparada e ambiente psicologicamente seguro. O movimento sinaliza que saúde mental não é mais benefício complementar, é parte estrutural do resultado.

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