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Terá o mundo ficado misturofóbico? – 10/06/2025 – Rui Tavares

A imagem apresenta um retrato em tons de sépia de Luís de Camões, o célebre poeta português. Ele é representado com uma expressiva gola elizabetana e uma armadura parcial, sugerindo sua posição como um homem de letras e, possivelmente, um passado militar. Seu olhar é direto e sua barba e bigode são estilizados de acordo com a moda de sua época.

Portugal é talvez o único país a celebrar o seu dia nacional não com a evocação de uma batalha, mas antes lembrando a data da morte de um poeta, Luís Vaz de Camões, em 10 de junho de 1580.

Camões morreu quase só —este quase é importante, direi no fim o porquê— e pouco antes de Portugal passar a partilhar o mesmo rei com Espanha durante 60 anos, uma “união dinástica” que a posteridade interpretaria (de forma errada, porque anacrônica) como uma perda de independência.

Quatrocentos anos depois, no final do século 19, o paradoxo foi bem aproveitado pelo movimento republicano, que fez do dia da morte de Camões uma ocasião de reivindicar para si a verdadeira fé patriótica. Com a implantação do regime republicano, em 1910, o Dia de Camões passou a ser feriado nacional. O Estado Novo, como chamou a si mesmo o regime ditatorial de Salazar, veio a transformar essa data na celebração do Dia da Raça. E após a Revolução dos Cravos, em 1974, nova transformação viria a chamar à data nacional o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Neste ano, a celebração desse dia foi na cidade algarvia de Lagos, um entreposto do tráfico de africanos escravizados a partir do século 16. Conscientes do fato, tanto o presidente Marcelo Rebelo de Sousa quanto a oradora convidada, a grande escritora portuguesa Lídia Jorge (nascida naquela região e tendo vivido por um período nas ex-colônias africanas, sobre as quais escreveu alguns dos seus livros mais importantes) fizeram questão de lembrar o papel histórico do Reino de Portugal nesse comércio forçado de milhões de seres humanos entre os séculos 16 e 19.

Curiosamente, não foi a referência a esse fato histórico inegável que gerou polêmica, mas antes as passagens de ambos os discursos que se pronunciaram sobre a ideia da mistura. Marcelo Rebelo de Sousa foi lapidar ao dizer que “não há quem possa dizer que é mais puro ou mais português do que outro”. Lídia Jorge, ainda mais contundente, disse apenas: “Aqui não há sangue puro”.

“A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado.”

As primeiras reações foram, é claro, as dos racistas que se sentem ofendidos na tal suposta pureza pela menção à diversidade do patrimônio genético de que os portugueses fazem parte (Marcelo Rebelo de Sousa juntou-lhe, no seu discurso, os judeus e mouros que compunham o reino multiétnico e multirreligioso de Portugal até a Inquisição). Mas não duvido que outras críticas cheguem, da parte de quem considera que não é legítimo a ninguém se colocar no lugar das vítimas ou dos seus opressores.

Camões não morreu sozinho, mas diz-se que acompanhado pelo seu único amigo, um estrangeiro, chamado Jau, da Ilha de Java, na atual Indonésia. Que não é impossível que tivesse sido escravizado.

Quem deseja se colocar como representante de categorias morais absolutas não gosta de misturas. Mas sem misturas não há história para contar.



Fonte ==> Folha SP

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