Bayard Do Coutto Boiteux
Mais um Carnaval entra para a história do Rio de Janeiro. Houve muitos acertos, mas também a necessidade de realinhar diversas ações. A recuperação turística do produto Rio é uma realidade: a EMBRATUR passou a priorizar o maior ícone do nosso turismo e tenta minimizar a histórica disputa política entre Estado e Prefeitura, que acaba prejudicando resultados ainda mais expressivos. Enquanto isso, a iniciativa privada segue, em grande parte, silenciosa.
A ocupação hoteleira superior a 95% é um dado a ser comemorado, assim como a presença de cerca de 340 mil turistas estrangeiros. O Sambódromo, que a cada ano introduz novidades, mostra-se à frente do seu tempo. No quesito organização dos desfiles e controle da pista, tudo funcionou muito bem. O primeiro problema surgiu nos camarotes, que, via de regra, estavam com ocupação acima da capacidade permitida. Com ingressos caríssimos, foliões ficaram espremidos, com dificuldade inclusive para acessar banheiros e circular. Uma fiscalização rigorosa é necessária e vital para garantir o respeito à capacidade real de público.

A fanfarra do Fairmont
Os turistas já não se concentram em um único setor. As agências de receptivo acabam adquirindo ingressos em áreas distintas, o que dificulta uma atenção mais estruturada aos visitantes. Falta uma sistematização na Passarela quanto ao credenciamento de quem ali está para trabalhar e não para circular, fotografar ou utilizar a credencial como instrumento de autopromoção. Persistem também falhas na concessão dessas credenciais, já que os organizadores não conseguem checar minuciosamente cada solicitação.
Os blocos crescem de maneira nunca vista, tanto os formais quanto os informais. Foliões invadem marquises e urinam nas ruas porque a infraestrutura disponibilizada tornou-se insuficiente. Em algumas áreas do Centro e da Zona Sul, moradores acabam praticamente aprisionados em suas próprias residências. A Prefeitura precisa iniciar, o quanto antes, um novo planejamento, levando blocos para outras áreas da cidade, como o Parque Rita Lee, na Barra Olímpica, por exemplo.
Os bailes sobrevivem, em sua maioria, sem criatividade o mesmo ocorre com muitas feijoadas. Confesso que a única exceção que presenciei foi a do Fairmont Copacabana, que realizou, pela segunda vez, um sofisticado baile de máscaras. Tudo foi pensado por uma equipe alinhada aos novos conceitos de entretenimento: check-in ágil por QR Code, em aplicativo seguro; buffet inovador servido em ilhas, com pratos criados sob a supervisão do chef Jérôme Dardillac; bebidas servidas com elegância, comme il faut; e um show inesquecível de Ludmilla, cuja voz e energia embalaram os presentes.
No entanto, senti que os fotógrafos se limitaram a registrar sempre as mesmas pessoas, deixando de captar a diversidade que ocupava o quarto andar do hotel dos mais sofisticados, com máscaras e fantasias especialmente criadas para a noite, aos que optaram por jeans e camiseta. Tolerar estilos distintos é parte essencial da gestão plural de grandes eventos.

Bayard Do Coutto Boiteux
A gestão inovadora também se fez presente na feijoada realizada em parceria com a Associação dos Embaixadores de Turismo do RJ, no Bloco do Tropik. Participar de um evento com fanfarra formada pelos próprios colaboradores do hotel, receber uma camiseta estampada com obra do artista francês Philippe Seigle, radicado na Espanha, e desfrutar durante seis horas de um serviço volante de alimentos e bebidas, com entradas, feijoada e sobremesas, foi uma experiência marcada por vibração e identidade carioca.
O Corpo Consular, cujos integrantes nutrem especial carinho pelo Rio, também pode e deve ser mais bem aproveitado. Sua presença nos grandes eventos amplia conexões e pode incentivar a vinda de convidados estrangeiros, aumentando ainda mais a visibilidade internacional já garantida por correspondentes e jornalistas que cobrem a festa.
O início tardio dos desfiles do grupo da LIESA, em função de acordos de transmissão, é outro ponto que precisa ser revisto. Escolas encerrando suas apresentações às quatro da manhã geraram problemas de segurança, sobretudo roubos e furtos de celulares. Embora o trabalho das forças de segurança do Estado tenha evoluído, áreas residenciais não turísticas ficaram descobertas. Ainda assim, três dias de desfile especialmente sem chuva parecem ter vindo para ficar.
Em 2026, quando completo 48 anos dedicados ao turismo, como observador crítico e apaixonado, celebro os avanços alcançados. Não sei se, em 2027, terei a mesma disposição para continuar ativo no maior evento do planeta. Mas conclamo a todos a festejar e, ao mesmo tempo, refletir: o resgate cultural e social proporcionado pelo Carnaval, o dinheiro novo que circula nas economias locais e a necessidade de uma política de turismo técnica e não partidária são os verdadeiros desafios dos profissionais que acreditam no Rio.
Bayard Do Coutto Boiteux é professor universitário, pesquisador, autor de inúmeros livros e uma das vozes que acreditam e lutam pelo Rio.