Há um instante raro no teatro em que a encenação consegue transpor a barreira da ficção e tocar diretamente a experiência coletiva da plateia. É nesse limiar que se estabelece “Donatello”, monólogo musical estrelado e escrito por Vitor Rocha, com direção de Victoria Ariante.
O espetáculo propõe uma reflexão sensível e corajosa sobre o Alzheimer, ancorada em um recurso narrativo tão singelo quanto profundo: a vida como um sorvete que derrete sob o calor implacável do tempo. Longe dos grandes aparatos tecnológicos, a montagem aposta na economia de elementos cênicos – uma mesa, uma cadeira, uma bicicleta e um pianista em cena – para construir uma atmosfera de intimidade que potencializa o impacto emocional da narrativa.
A trama acompanha o amadurecimento de um menino diante da primeira crise do avô, vítima da doença neurodegenerativa. Ao perceber que o idoso já não reconhece seu nome, mas preserva a memória gustativa do sorvete de amendoim e coco branco, o neto arquiteta uma estratégia de resistência afetiva: codificar todas as lembranças significativas da própria vida em sabores.
A premissa, embora poética, encontra respaldo na ciência ao explorar a estimulação sensorial como possível gatilho para a memória, ainda que a dramaturgia não se proponha a um tratado médico, mas a uma investigação sobre os limites do amor diante do esquecimento.
Um dos diferenciais do espetáculo é a quebra da quarta parede antes mesmo do início oficial da sessão. Vitor Rocha recebe o público no palco, conversa e coleta palavras e memórias em post-its. Esses fragmentos reais, trazidos pelos espectadores a cada noite, são incorporados de forma improvisada ao texto e às canções, tornando cada apresentação um evento único e irrepetível.
Mais do que um recurso dramatúrgico, esse procedimento espelha, no plano da performance, o esforço cognitivo do avô para se ancorar na realidade – o ator, ao precisar lembrar e integrar essas palavras em tempo real, vivencia ele mesmo a fragilidade da memória. Ao fundo, o piano, tocado ao vivo por Guilherme Gila, atua como personagem invisível e flutuante, reagindo ao fluxo de consciência do protagonista e guiando o espectador por essa arquitetura sonora e afetiva.
A opção narrativa de filtrar a tragédia pelo olhar de uma criança que vai amadurecendo conforme o tempo passa confere à peça uma delicadeza lírica que evita o tom panfletário ou a morbidez. Sob essa perspectiva, as crises do avô são traduzidas como viagens espaciais inspiradas em clássicos do cinema, e a ruína física do corpo ganha contornos quase oníricos. Não se trata de uma romantização da doença, mas de uma estilização da dor para torná-la suportável. Um recurso estético que aproxima o público da experiência sem violar sua integridade emocional.
O espetáculo não traz soluções mágicas para o luto e o esquecimento. Seu viço reside, antes, na capacidade de transformar uma dor comum em experiência estética compartilhada. Um raro exercício de cura coletiva que convida o público a saborear, com atenção plena, as próprias lembranças e as pessoas que ama, antes que o tempo, inevitável e implacável, as dissipe.
Três perguntas para…
… Vitor Rocha
O sorvete é uma linguagem que substitui a palavra esquecida. Como você descobriu que o paladar era o canal sensorial certo para traduzir o amor em meio ao apagamento da memória?
Tenho a mania de pensar em antônimos no meu trabalho; gosto de juntar coisas distantes para tirar o público do automático. Já usei cantigas de roda em tragédias e fantoches dos anos 90 para falar de depressão. Dessa vez, eu queria abordar a parte dura do envelhecimento e da perda de memória.
Para criar esse contraste, sabia que precisava olhar para a infância, para o começo da vida. Foi pensando no que me remetia àquela época que cheguei ao paladar, que é, de fato, um dos maiores meios de teletransporte implantados na nossa cabeça.
Incorporar sugestões da plateia a cada apresentação em tempo real exige uma entrega absoluta. Como você se prepara mentalmente para isso acontecer de forma orgânica?
É um jogo que exige bastante concentração. Desde que tive a ideia de incorporar as memórias da plateia, sabia que seria desafiador, mas também o que tornaria tudo mais íntimo e divertido. O melhor jeito de fazer alguém querer ouvir uma história é mostrar que ela também é sobre essa pessoa.
Em termos de preparação, além da concentração antes do espetáculo, o que mais me ajuda é estar realmente atento a quem participa: reparar em como são, no que vestem e como reagem. Não é só um jogo de perguntas e respostas, é um momento de compartilhar memórias. Funciona melhor quando eu consigo ir além do nome e imaginar, de fato, aquele “pai”, aquela “tia” ou “amigo de infância” que a pessoa está evocando e dividindo comigo.
Se o “Donatello” pudesse assistir à peça em algum lugar da memória que ainda resta, o que você acha que ele diria sobre o neto que virou ator para mantê-lo vivo?
Essa é a hora em que quebro um pouco o encanto: a história não é autobiográfica e o vovô Donatello nunca existiu fora dos palcos. Eu mal conheci meus avós. A ideia do espetáculo surgiu, na verdade, do que vivi nos últimos meses de vida do meu pai, que foi diagnosticado com um tumor cerebral. É um lugar frágil, dolorido e bonito que a família passa a ocupar diante de um diagnóstico sem cura.
Essa crueza me fez querer falar sobre o assunto, mas através da ficção, pois minha parte preferida de tudo isso é criar. Ainda assim, acabei recorrendo a algumas memórias próprias. A que escolhi manter viva como homenagem foi o sabor de sorvete favorito do meu pai, que é o grande catalisador da história. Acho que, se ele pudesse assistir, diria que adorou a brincadeira, me cobraria os créditos e ficaria feliz por ter sido promovido a “vovô” na ficção, já que em vida isso não foi possível.
Teatro do Núcleo Experimental – Rua Barra Funda, 637, Barra Funda, região oeste. Sábado, 20h e domingo, 19h. Até 19/7. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Os ingressos para a temporada estão esgotados. Na próxima, não deixe de ver.
Fonte ==> Folha SP