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O voto é secreto. E a sua timeline?

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Ninguém é reprovado por votar diferente de quem te entrevistou. O problema começa quando o outro lado descobre como você briga online.

Minuto quarenta de uma reunião de comitê. Três finalistas na mesa, um deles claramente à frente dos outros. Alguém vira o notebook e mostra a tela para o resto do grupo. Ninguém lê em voz alta. Ninguém pronuncia a palavra política. A conversa escorrega para o segundo nome da lista e o assunto morre ali, sem ata e sem que ninguém precise assumir coisa alguma.

A cena se repete em toda eleição e vai se repetir bastante nas próximas semanas. Quem trabalha com busca de executivos aprende a reconhecer o silêncio que vem logo depois dela.

O motivo é o que quase todo mundo entende errado. Conselho nenhum reprova alguém por votar diferente. Seria ilegal e, pior, seria burrice: grupo em que todos pensam igual decide mal. O que trava é outra coisa. Ao ler quatro publicações raivosas, o comitê acredita ter visto, pela primeira vez, como aquela pessoa se comporta quando está com raiva.

E essa é uma informação valiosa para quem contrata. Currículo e entrevista mostram o profissional no melhor dia, com resposta pensada na véspera. Uma sequência de posts às onze da noite mostra a mesma pessoa sem edição, discutindo com um desconhecido que ela nunca vai encontrar na vida. Para um comitê tentando adivinhar como o candidato reage à primeira crise, aquilo vale mais do que qualquer resposta ensaiada.

Há também uma diferença de cadeira que poucos consideram. O especialista é contratado pelo que entrega. Quem lidera é contratado pela capacidade de ser seguido por gente que pensa diferente, inclusive por quem votou do outro lado. Todo time lê o perfil do novo chefe na semana em que ele chega, e essa leitura é rápida e costuma ser definitiva. Em áreas que dependem de trânsito com qualquer governo que se eleja, como Relações Governamentais, a conta chega ainda mais rápido.

A temperatura deste ano ajuda a explicar o volume. O Ministério Público do Trabalho já recebeu 223 denúncias de assédio eleitoral em 2026, casos em que o chefe pressiona o empregado sobre em quem votar. Na mesma janela de 2022, tinham sido oito. O país está discutindo mais alto, e quase ninguém está discutindo melhor.

Outubro acaba em outubro. O texto escrito numa terça-feira nervosa continua disponível em 2032, quando alguém abrir seu nome para decidir uma sucessão. Essa pessoa vai ler a frase sozinha, sem nenhuma informação sobre a briga que a produziu e sem a menor vontade de procurá-la.

Antes que isso vire elogio à covardia, o extremo oposto cobra o mesmo preço. Executivo que atravessa trinta anos sem opinião sobre nada chega ao fim com um perfil liso, que não incomoda ninguém e também não convence ninguém. Nas checagens de referência, ele é descrito com adjetivos genéricos, daqueles que se usam para quem não deixou lembrança. Quando a vaga pede convicção, é o primeiro a cair.

A linha entre as duas coisas é mais simples do que parece. Posição se sustenta com argumentos. Hostilidade depende muito de adjetivo. Dá para defender com firmeza qualquer tese sobre imposto ou sobre segurança pública e seguir sendo alguém com quem dá vontade de trabalhar. O que fecha porta é o adjetivo colado no adversário.

Se quiser fazer um teste antes de outubro, ele leva dez minutos. Abra suas últimas vinte publicações e leia como se fosse um estranho decidindo se entrega a você um problema caro. Depois escolha, de olhos abertos, quanto disso está disposto a pagar, porque se posicionar em público é uma decisão legítima, que estreita o mercado e muitas vezes vale a pena. O que não funciona é apagar tudo na véspera de um processo. Histórico limpo com pressa chama mais atenção do que opinião antiga, e alguém sempre guardou o print.

O voto é secreto por um bom motivo: para que ninguém precise pagar profissionalmente pelo que escolhe na urna. A timeline desfez esse acordo sem pedir autorização a ninguém. Vale lembrar disso antes do próximo post.

Fábio Salomon é headhunter e mentor de carreiras, palestrante e apresentador do Café com Sal, podcast que trata de temas como carreira, liderança e empreendedorismo.

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