Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Paradoxos de morte – 04/03/2025 – Hélio Schwartsman

Eutanásia

Paradoxos são um fato da vida. E da morte.

Tenho lido artigos na imprensa estrangeira que relatam o drama de pacientes de demências interessados em eutanásia.

Em países civilizados, cidadãos têm o direito de obter ajuda médica para morrer, se julgarem que suas vidas já não valem mais a pena. Em geral, é necessário que o pedido parta do próprio paciente, que precisa ser considerado mentalmente competente. É aí que começam as dificuldades.

Demências são doenças progressivas. Enquanto o comprometimento é leve, o sujeito ainda é visto como legalmente apto para solicitar a eutanásia. Só que, enquanto o comprometimento é leve ou moderado, ele ainda dispõe de momentos bons, que podem fazê-lo querer viver mais tempo.

Mas, para não perder a janela da competência, pacientes acabam pedindo para morrer antes do que desejariam. Médicos têm um ponto quando dizem que se sentem desconfortáveis em submeter a eutanásia ativa alguém que já não tem condição de concordar com ela.

A solução para o problema, que já vem sendo adotada em algumas jurisdições, é aceitar diretivas antecipadas para a eutanásia. O paciente ainda competente define num documento o marco futuro a partir do qual não quer mais viver.

Falamos aqui de limiares como a possibilidade de viver de forma independente ou reconhecer parentes. Faz sentido, mas não é tão simples. O que é reconhecer um filho? Chamá-lo pelo nome ou sorrir quando ele entra no quarto?

Pior, é possível argumentar que, quando o paciente está tão comprometido que não reconhece ninguém, ele tampouco dispõe de um senso de dignidade que é o justificava a eutanásia. A menos que ele tenha também um quadro de dor, não haveria mais motivo para antecipar sua morte. Catch-22.

Fato. Em fases avançadas, demências já não impactam a autoimagem de seus portadores, mas afetam como a pessoa será lembrada. Se achamos que indivíduos têm o direito de dispor sobre bens e obras para além da morte, então também têm o direito de tentar gerir memórias que deixarão.

helio@uol.com.br



Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

Jornalista denuncia perseguição e diz viver escalada de pressão após críticas ao poder público em Barcarena
The New York Times elenca as 100 melhores séries do século 21
De Breves à Assembleia Legislativa: a trajetória de Luiz Rebelo e os desafios do desenvolvimento do Pará

Leia mais

Dólar dispara e Bolsa cai com empate técnico entre Flávio e Lula e avanço do fim da escala 6x1
Dólar fecha abaixo de R$ 5 e recua 1,58% na semana
Pesquisa aponta que solidão e exaustão ampliam abstenção nas urnas
Pedir votos e fazer propaganda: saiba o que é proibido no dia de votar
INSS devolve R$ 3,6 bilhões a segurados que contestaram fraude, e 1,6 milhão esperam valores
INSS devolve R$ 3,6 bilhões a segurados que contestaram fraude, e 1,6 milhão esperam valores
Grupos armados reivindicam ataques contra o regime do Irã
Grupos armados reivindicam ataques contra o regime do Irã
Órgão Especial do TJRJ confirma Vasco x Boca Juniors no Maracanã
Órgão Especial do TJRJ confirma Vasco x Boca Juniors no Maracanã
Mais de 4 mil eleitores tiveram locais votação alterados
Motorista é preso após atropelar idoso durante ato pró-Lula em Belo Horizonte