Eu devia ter escrito essa crônica anos atrás, quando pedi um yakissoba e o garçom me perguntou: “Qual a proteína?”. Fiquei olhando pra ele, atônito, como num pesadelo recorrente em que me vejo de volta à escola para fazer uma prova supostamente perdida lá por 1993.
Qual a proteína? Seria uma promoção do restaurante? Uma joint venture entre Lig Lig e Anglo Vestibulares? Tipo: diga quais os macronutrientes contidos no seu prato e leve grátis um refrigerante? Perguntará ele, em seguida —valendo um picolé— o comprimento da hipotenusa dos dois triângulos retângulos formados por uma diagonal cortando a mesa de 80 cm x 80 cm?
Percebendo minha hesitação, o cara deu uma ajuda: “Amigo: é com carne, frango ou tofu?”. Confesso que, na hora, pensei tratar-se de uma esquisitice do garçom ou do restaurante. Mal sabia eu que estávamos no começo da grande revolução proteica e que em meses esta palavra, “proteína”, antes restrita aos consultórios de nutricionistas e às embalagens dos alimentos, seria escrita, falada e consumida por todos os lados, de todas as formas, numa ascensão da obscuridade ao estrelato só comparável à de Michel Teló, em 2011, com “Ai, Se Eu Te Pego”.
Não sei onde começou, nem como ou por culpa de quem, mas em algum momento no início desta década decretou-se que faltava aminoácido na nossa dieta e o mercado tratou de responder à demanda. Hoje, nos caixas das farmácias, o Tylenol, o Luftal e o Advil quase não têm mais espaço, relegados a umas bandejinhas laterais —se fosse estádio, era arquibancada, atrás do gol, em dia de chuva.
Na numerada coberta, no meio do campo, só dá ela: barra de proteína, biscoito com proteína, waffer com proteína, brownie com proteína, salgadinho com proteína, bolotas achocolatadas com proteína, suspiro com proteína. Sem falar, é claro, na pura e simples proteína com proteína: aqueles potões de whey, antes destinados apenas a fisioculturistas e competidores do Ironman, mas que hoje podem ser encontrados nos carrinhos de supermercado da mais pacata nonagenária de Higienópolis. (Fico intrigado se houve algum impacto no tricô ou nas palavras cruzadas.) Uma matéria recente da revista americana The Atlantic conta que a busca por whey chegou a tal ponto que entramos numa era de escassez: não tem vaca no mundo pra dar conta de nossa sanha proteica. Desde o início do ano, o preço desta proteína, extraída do leite, subiu mais de 50%.
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O whey, eu não sabia, era até outro dia um subproduto na preparação do queijo e durante boa parte do século 20 desfazer-se dele é que era o problema. Em alguns estados americanos as fábricas de laticínios jogavam nos rios em tamanha quantidade que chegava a envenenar os peixes. Agora é quase o contrário e se a demanda e o preço do whey continuarem subindo eu imagino, em breve, as fábricas entupindo os rios de bries e camemberts.
Alguém tem que dar um toque na proteína. Não sei se devem ser as vitaminas, que viveram décadas e décadas de sucesso na Premier League da saúde e hoje lutam na série B das preocupações alimentares. Quem sabe o Michel Teló, que frequentou o top 10 das mais tocadas no mundo todo e agora vende tanto quanto um tubinho de Cebion? Não, não, nem vitaminas nem Teló, já sei quem tem que dar esse conselho — e como. “Queridona, você já passou de todos os limites de exposição. Ninguém sobrevive a tanto tempo debaixo dos holofotes. Falamos com conhecimento de causa. Por séculos nos gabamos de fazer parte do corpo de Cristo e do manjar dos deuses, respectivamente, e hoje somos perseguidos como os piores hereges do trato digestivo. Abre o olho. Um abraço amigo, Glúten e Lactose.”
Fonte ==> Folha SP