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Atirar contra Trump vai ser reação simplória do Brasil – 02/04/2025 – Vinicius Torres Freire

Um homem está falando em um microfone enquanto segura um cartaz que apresenta informações sobre tarifas recíprocas de diferentes países. O fundo é uma bandeira americana. O cartaz lista países como China, União Europeia, Vietnã, Japão, Índia, entre outros, com porcentagens ao lado de cada um, indicando tarifas cobradas aos EUA.

Faz meses, há falação sobre como o governo do Brasil deve reagir ao aumento do imposto de importação americano sobre produtos brasileiros. No caso do Brasil, o tributo fica em 10%, o piso. Saiu até barato —vai ficar em 10%, ante 20% para a União Europeia, 24% para o Japão, 34% para a China e 46% para o Vietnã.

Vale a pena “reagir” a esse imposto maluco de Trump ou repensar o lugar do Brasil nessa nova situação global?

Pouca gente pergunta “reação ao quê?”. Discute-se em geral retaliação tributária ou medida qualquer que pudesse provocar dores em negócios americanos. O contra-ataque renderia alguma concessão, se imagina ou fantasia.

É uma reação pensada nos mesmos termos de Donald Trump —pelo menos, é tão mercantilista quanto. É uma reação que: 1) pode provocar danos à economia brasileira —encarecer insumos e produtos de exportação; 2) mal pensa no tamanho do problema e da reviravolta nas relações econômicas mundiais, que de resto vão muito além das reações de governos. Mais do que isso, se Trump prevalecer, a política vai mais e mais mandar a lógica econômica para o vinagre.

Para começar, pode haver sobras de produção por aí, que poderiam ser exportadas para o Brasil ou afetar preços de produtos exportados pelo Brasil. A depender do tamanho, duração e variedade da pancada americana, vai haver paulatina reorganização de empresas, de relações e acordos comerciais entre países, mudanças de padrão de investimento. A reação tem de levar em conta outros países e o longo prazo.

Logo, essa conversa futebolística e militar de ataque e contra-ataque é um modo muito limitado, para dizer o mínimo, de pensar o problema.

O Brasil exporta por ano uns US$ 40 bilhões para os Estados Unidos, uns R$ 230 bilhões. Será ou seria conveniente evitar a perda desses dinheiros —isso se as contramedidas não forem contraproducentes, se o remédio não for pior do que a doença.

Mais importante é saber como levar alguma vantagem ou evitar danos extras tanto na negociação com os americanos como naquela que sobrevirá com o restante do mundo.

Para começar: o país ganharia com a redução de impostos de importação e outras barreiras? A proteção a certos setores econômicos contra a concorrência externa rende resultados? Em quais setores? Para novos setores e negócios?

Segundo, quais novos acordos podem ser firmados, nesse execrável mundo novo? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acaba de falar de acordo Mercosul-Japão. Até o ano passado, seria fantasia. Agora, ainda que qualquer tratativa consequente demore muito, algum acordo pode sair.

Até a França deu sinalzinho de que pode criar menos problema para o acordo com a União Europeia. Pode haver revisão mais ambiciosa das relações de investimento e comércio com a China? Por que o comércio com o México e a América do Sul, é tão pequeno?

Por que a atenção quase exclusiva a essa conversa mercantilista de retaliar? O assunto é muito maior, haverá problemas em muitas outras partes. Protecionismos e políticas setoriais (“industriais”) erradas (pode haver das boas) já prejudicam a economia brasileira.

Sim, Trump é um desastre e uma ameaça, mas pensar a guerra comercial como um Fla x Flu, Brasil x EUA, será um erro, uma burrice e não vai resultar em nada de bom para o futuro comercial e econômico do Brasil.



Fonte ==> Folha SP

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