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Brasileiros estudam dente para desvendar ancestral – 06/12/2025 – Reinaldo José Lopes

Early Homo skulls from Dmanisi, Georgia (specimens D2280, D2282, D2700, D3444, and D4500) with internal braincase structures revealed by computed tomography and virtual reconstruction.

Acredite: não há selva darwinista mais impiedosa do que o campo dos estudos sobre evolução humana. Quem se aventura nessa área precisa enfrentar, entre outras coisas, a relativa falta de material para analisar –os fósseis de nossos ancestrais remotos são relativamente raros, e vão ficando ainda mais raros conforme recuamos no tempo–, a competição feroz com outros pesquisadores em nível internacional, os desafios da interdisciplinaridade e até as incertezas da geopolítica, que também dificultam o acesso ao material fossilizado. Por tudo isso, ver que cientistas brasileiros estão cavando cada vez mais espaço nesse ramo é uma alegria, em especial quando eles se dispõem a enfrentar um dos mistérios mais cabeludos da paleoantropologia.

Refiro-me ao curioso caso dos hominínios (membros da linhagem humana) de Dmanisi, na Geórgia, historicamente uma das grandes encruzilhadas entre a Europa e a Ásia. Com idade estimada em 1,8 milhões de anos, os cinco crânios escavados no país do Cáucaso nos anos 1990 e 2000 foram classificados originalmente como membros da espécie Homo erectus –em tese, a primeira do gênero humano a deixar nosso berço na África.

Há, porém, um problema. A variedade de tamanhos do cérebro e de formato da face e da mandíbula entre esses cinco exemplares é grande –certamente maior do que se esperaria entre os membros da nossa espécie, por exemplo.

Uma explicação possível para essa variabilidade é o chamado dimorfismo sexual. Ou seja, as diferenças de tamanho e detalhes anatômicos que muitas vezes aparecem entre um sexo e outro dentro da mesma espécie (é graças a elas que, em diversos casos, um legista consegue distinguir o esqueleto de uma pessoa do sexo masculino da de outra do sexo feminino).

Há quem avalie, porém, que duas espécies diferentes de hominínios teriam convivido em Dmanisi –o que não seria nada impossível, considerando outros casos do tipo na África e em outros lugares. Chegaram até a propor nomes (bastante autoexplicativos) para elas: H. georgicus e H. caucasi. Como saber qual hipótese é a correta?

É aqui que entra a contribuição brasileira ao debate, que acaba de sair no periódico PLOS One. Assinado por Victor Nery, Walter Neves e Leticia Valota (todos do Instituto de Estudos Avançados da USP), e Mark Hubbe, da Universidade do Estado de Ohio (o último autor também é brasileiro, apesar do nome e da instituição), o trabalho comparou a dentição dos misteriosos ancestrais georgianos com a de dezenas de outros hominínios, algo que tinha sido pouco investigado antes.

O grupo brasileiro comparou a área da coroa dos dentes (a parte visível da dentição, acima da raiz), e as pistas identificadas por eles são intrigantes. Em resumo, alguns dos indivíduos de Dmanisi se encaixam, de fato, na variabilidade do gênero Homo. Mas ao menos um deles está mais perto dos australopitecos, hominínios mais primitivos que, em tese, nunca teriam deixado a África.

Ou será que não? Outros trabalhos do grupo da USP, feitos na Jordânia com base em instrumentos de pedra, também sugerem uma primeira expansão da nossa linhagem antes das jornadas do Homo erectus, o que parece bater com a análise dos dados de Dmanisi. Para variar, vamos precisar de mais fósseis e muito mais trabalho para que o mistério se dissipe. A única certeza é que o passado continua se tornando muito mais fascinante e complicado do que era antigamente.



Fonte ==> Folha SP

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