O caso recente em Minas Gerais, que ganhou repercussão nacional após a absolvição de um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos, reacende um debate urgente e inadiável: quem protege as meninas quando as instituições falham?
Entre os elementos mais alarmantes revelados nas investigações está um detalhe que não pode passar despercebido: a menina havia deixado de frequentar a escola. A situação reforça que, quando uma criança deixa a escola, não é apenas uma ausência acadêmica, é um sinal de alerta social.
A escola é, muitas vezes, o espaço que identifica situações de violência, abuso ou negligência. Professores e profissionais da educação são, na prática, uma rede de proteção cotidiana.
São eles que percebem mudanças de comportamento, quedas bruscas no rendimento, ausências recorrentes ou sinais de sofrimento, sendo, em muitos casos, quem rompe o ciclo do silêncio.
Segundo o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais de 34 mil crianças de 10 a 14 anos viviam em união conjugal no Brasil, e 77% delas eram meninas.
Embora o casamento seja proibido para menores de 16 anos desde 2019, a maioria desses casos ocorre em uniões consensuais —sem registro civil ou religioso— que representam 86,6% das situações.
As desigualdades aparecem de forma contundente: cerca de 69% das crianças em união são pretas ou pardas; o Nordeste concentra 39% dos casos, seguido do Sudeste (25%) e do Norte (17%), sendo que proporcionalmente a maior taxa está na região Norte.
Em comunidades vulneráveis, onde pobreza, exclusão escolar e violência convivem, o casamento precoce pode parecer uma alternativa possível, mas, na prática, aprofunda ciclos de violação de direitos.
Muitas dessas relações são romantizadas, mesmo diante de enormes desigualdades de idade e poder. Mas a lei é clara: qualquer relação sexual com menores de 14 anos é estupro de vulnerável, independentemente de consentimento ou vínculo afetivo.
Além da discussão pública, é preciso olhar para as condições que permitem que situações como essa se desenvolvam sem interrupção. E isso passa necessariamente pela escola.
Quando educadores têm formação adequada, protocolos claros e respaldo institucional, a escola se torna uma barreira concreta contra a violência. Portanto, denunciar suspeitas parte da responsabilidade prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Nesse contexto, também é preciso fazer uma reflexão séria sobre propostas de educação domiciliar, o chamado homeschooling.
Embora muitas famílias defendam essa modalidade por diferentes razões, não se pode ignorar que a maioria dos casos de violência contra crianças ocorre justamente dentro de casa.
Quando crianças deixam de frequentar a escola, perde-se uma das poucas redes externas capazes de perceber sinais de abuso, negligência ou exploração. Outro ponto central é o debate sobre o que pode e deve ser discutido dentro das escolas.
Falar sobre direitos, consentimento, prevenção da violência e igualdade de gênero não significa antecipar conteúdos inadequados, mas oferecer ferramentas para que crianças e adolescentes reconheçam situações de risco e saibam onde buscar ajuda. Quando o tema não é abordado, o desconhecimento abre espaço para a naturalização da violência.
O caso de Minas Gerais evidencia uma realidade mais ampla: meninas continuam sendo retiradas de seus projetos de vida antes mesmo de terem a chance de construí-los. E, muitas vezes, isso acontece longe dos olhos do poder público, mas não longe dos olhos da escola.
Na Plan International Brasil, trabalhamos para romper ciclos de violência contra meninas e promover igualdade de oportunidades, constatando que manter meninas na escola é uma das estratégias mais eficazes para reduzir riscos de violência e ampliar perspectivas de futuro.
Enquanto houver uma menina de 12 anos vivendo como esposa, o país seguirá falhando em seu dever de protegê-la. E a escola continuará sendo um dos poucos espaços capazes de ver o que tantos insistem em não enxergar.
Fonte ==> Folha SP