Qual o maior crime já cometido contra a humanidade? A pergunta é instigante, mas para a União Africana (UA), organismo formado pelos 55 países do continente, a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos escravizados.
A entidade está em busca do reconhecimento oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) desse entendimento. Uma resolução nesse sentido foi aprovada em fevereiro e encaminhada à apreciação da ONU em busca, ao menos, de um pedido formal de desculpas das nações que lucraram com a prática.
Concordo que não há outra ação criminosa cometida contra seres humanos no passado que tenha vitimado tanta gente (cerca de 15 milhões de pessoas), por tanto tempo (ao longo de 400 anos) e que siga repercutindo na ordem socioeconômica contemporânea com tamanha intensidade.
Os efeitos físicos, psicológicos, econômicos e sociais desencadeados pelo tráfico e escravização africana perduraram no tempo e são sentidos no corpo e na alma por milhões de pessoas até hoje.
Manifestam-se no racismo e na violência étnico-racial.
Acarretam sentenças de morte proferidas por agentes públicos contra inocentes condenados sumariamente à perda da vida. “Vai morrer irmão, desce”, disse um PM do Rio a uma mulher negra, a médica Andréa Marins Dias, que teve o carro alvejado e foi morta com um tiro no peito por dirigir o próprio veículo ao sair da casa dos pais.
Resultam no desrespeito da autoridade do próprio Estado Juiz, como aconteceu com os magistrados Fábio Esteves e Franciele Pereira do Nascimento, que sofreram ataques racistas durante um evento promovido pelo Tribunal de Justiça do Paraná.
Reconhecer as causas históricas do racismo e seus efeitos é imprescindível para entender a origem desse crime tragicamente comum no nosso cotidiano. Nesse sentido, o pleito da União Africana por reparação e justiça étnico-racial é urgente, necessário e eu torço para que seja, de fato, considerado e atendido pelas Nações Unidas.
Fonte ==> Folha SP