O editorial “Descaso histórico com a educação infantil“, publicado pela Folha em 1º de março, chama atenção para as 826,3 mil crianças sem creche no Brasil. A experiência da cidade de São Paulo, que priorizou a primeira infância, demonstra que esse cenário pode ser transformado com planejamento, investimento e gestão consistente —servindo de alento, mas principalmente de farol.
Os resultados são concretos. Em 17 de dezembro de 2020, o então prefeito reeleito Bruno Covas sentenciou: “Zeramos a fila de creche na cidade de São Paulo”, encerrando o principal foco de crítica à educação municipal ao longo de mais de 20 anos.
Desde então, pelo sexto ano consecutivo, a cidade não registra fila por vaga em creche para crianças de 0 a 3 anos, graças à abertura de novas unidades e ao fortalecimento de parcerias institucionais. Em 2022, sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes, o programa de consultas e exames Mãe Paulistana ganhou a vertente Creche, garantindo vaga desde o nascimento, em ação conjunta entre saúde e educação.
Além do acesso, há outro desafio: no Brasil, 39,1% das crianças em creches permanecem apenas em meio período, segundo o censo escolar. Em São Paulo, 100% das creches funcionam em período integral, com cinco refeições diárias balanceadas a partir de cardápios elaborados por nutricionistas e situações planejadas de educação e cuidados para os bebês e crianças viverem experiências diversas com base no currículo da cidade.
As professoras têm formação superior e contam com ações semanais de formação continuada. As unidades recebem acervos de livros, além de verba para brinquedos e equipamentos adequados à faixa etária atendida. Como o editorial destaca, há consenso sobre a importância da primeira infância.
Nesta linha, segundo o Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), evidências mostram que cada dólar investido nessa fase gera sete dólares de retorno para a sociedade, e crianças que recebem cuidados adequados têm 25% mais chances de progredir na vida. Trata-se do período de maior plasticidade do cérebro —uma janela de oportunidade.
Políticas públicas nas diversas áreas da gestão municipal são organizadas para que as desigualdades ainda presentes na cidade sejam enfrentadas. A área da educação tem conseguido demonstrar que é possível oferecer atendimento de qualidade em uma grande metrópole.
As creches garantem o acesso à primeira etapa da educação básica, oferecendo condições para os bebês e crianças, especialmente os mais vulneráveis, de aprendizagem e desenvolvimento em ambientes saudáveis e acolhedores. É para essas crianças que o poder público deve voltar sua prioridade, pois o investimento nessa etapa é fundamental para romper o ciclo da pobreza. Hoje, por exemplo, cerca de 63% das crianças atendidas pela rede municipal de ensino estão inseridas no CadÚnico.
O cuidado com o desenvolvimento integral também se reflete nas políticas de segurança alimentar e incentivo ao aleitamento materno, como o selo CEI Amigos do Peito. Destacam-se, ainda, o programa Leve Leite, voltado a famílias inscritas no CadÚnico, e a distribuição de cestas básicas nas férias escolares, garantindo alimentação adequada mesmo fora do período letivo.
Na ampliação da oferta, foi fundamental a parceria com organizações da sociedade civil. Vale registrar que a primeira creche pública da cidade, nos anos 1960, era conveniada. Diferentes governos sempre ampliaram esse modelo, reforçando que o serviço público de qualidade e gratuito não é apenas o estatal.
Para superar o déficit na oferta de vagas, esse debate, embora legítimo, não pode obscurecer o ponto central: a urgência de garantir o atendimento com qualidade na primeira infância em todo o País. Afinal, como diz a professora Mariza Abreu: “Educação infantil não tem EJA“. As crianças do Brasil não podem esperar.
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Fonte ==> Folha SP