A sensação, quase um consenso, é que 2026 mal despontou e já fomos arremessados em uma marcha acelerada que não conhece freio nem marcha à ré. A cada amanhecer, uma nova avalanche de informações nos atropela, um escândalo inédito, uma catástrofe televisionada, um algoritmo que promete a felicidade instantânea. Nós, como espectadores de um espetáculo que não pedimos para ver, nos encontramos diante da tela ou da vida com uma espécie de torpor. Uma anestesia.
Não me refiro à apatia, essa suposta falha moral que tanto nos apressamos em diagnosticar no outro para nos sentirmos virtuosos. Falo de algo mais sutil, mais defensivo: um reflexo psíquico, quase um espasmo da alma, diante da pura sobrecarga, como um disjuntor que desarma para que o sistema não entre em colapso.
O circuito da empatia, fustigado por tanta dor alheia transmitida em alta definição, entra em curto. A violência, antes chocante, se torna ruído de fundo, como o zumbido do ar-condicionado. A banalidade do mal, que Hannah Arendt viu na burocracia que dilui a responsabilidade, hoje encontra a sua versão 2.0 na banalidade da aceleração. A velocidade da notícia nos distancia do horror tanto quanto a papelada distanciava o oficial do resultado de sua canetada.
O que fazemos com essa indigestão psíquica? Buscamos salvadores de plantão. Figuras messiânicas, “sujeitos supostos saber”, a quem entregamos a tarefa de decifrar o caos e de nos dizer o que pensar, o que sentir e em quem votar. É mais confortável terceirizar a angústia que bancar o próprio desejo e a própria ignorância.
Mas a angústia, essa velha e teimosa senhora, não aceita ser demitida. Ela migra. Se a mente consciente se anestesia, o sofrimento não se evapora, mas encontra outra linguagem: grita no corpo, no ato e na compulsão. As estatísticas de drogadição, alcoolismo, suicídio e transtornos mentais não são números frios, são os telegramas desesperados de uma alma que se recusa ao silêncio.
E se a saída, no entanto, não estivesse em um novo salvador ou em mais uma pílula mágica? E se a subversão, a verdadeira revolução íntima, estivesse justamente naquilo que nossa cultura mais evita, o tédio?
Sim, o tédio. Não o ócio produtivo que nos vendem, como aprender um idioma, organizar armários ou otimizar a vida, mas o tédio improdutivo, visceral. O tédio não é a ausência de atividade, mas o desconforto que surge quando a atividade cessa e um certo vazio nos encara. É precisamente nesse vácuo, nesse aparente nada, que reside uma potência esquecida. A coragem de se entediar é a coragem de desligar o ruído externo para, finalmente, escutar o interno.
É nesse espaço que o desejo pode, enfim, respirar. É ali que a mente, livre da tirania do “ter que”, pode começar a costurar novos sentidos, a inventar perguntas mais interessantes e a redescobrir a própria voz.
É no tédio que a capacidade de sentir, de verdade, pode ser resgatada. Aquele filme que perturba por dias, a conversa fiada que, sem querer, toca o essencial, o olhar demorado para a chuva na janela. São nesses pequenos atos de resistência, nessa micropolítica do desejo contra a ditadura da aceleração, que talvez possamos reencontrar um pedaço de nós.
Não é uma solução grandiosa, eu sei. Não vai salvar o mundo. Mas talvez salve um pedaço de mundo: o seu. E, quem sabe, o meu. Afinal, como nos lembra a análise junguiana, se aventurar em si mesmo é sempre a maior das aventuras. Para isso, às vezes, basta ter a coragem de ficar de bobeira para não acabar, de vez, anestesiado.
Fonte ==> Folha SP