Logo no início da peça “Júlio César”, de Shakespeare, um vidente adverte o imperador: “Cuidado com os idos de março”, 15 de março no calendário romano. Sem dar atenção à profecia, César é assassinado nesse mesmo dia. Mas não foi preciso áugure nenhum para se prever que março seria um mês ominoso no Rio de Janeiro, tendo em vista os prazos eleitorais de desincompatibilização para a alternância dos titulares no poder. Uma semana depois dos idos, o Rio ficou ao mesmo tempo sem governador, prefeito, chefe de polícia e secretariado. É a cidade do “perdeu!”, uma metrópole à matroca.
Em “Águas de Março”, obra-prima da canção popular, depois de avaliar pau, pedra e o fim do caminho, Tom Jobim conclui que “é a lama / é a lama”. Metáfora adequada ao Rio de agora, um vórtice perigoso, com seus afluentes. No “Aleph”, Borges fala de homens que parecem estar cansados da indignidade de um mundo sem perigos. Traduza-se para entre nós: um mundo que troque ousadas políticas estruturantes pela calmaria gestionária que rebaixa a representação popular ao centro e à corrupção. Não por acaso as lideranças fluminenses dos últimos anos tiveram a indigna experiência do encarceramento por peculato.
A percepção nacional que sempre se teve do Rio de Janeiro era de ordem política e cultural, não econômica. Com a transferência da Capital Federal para Brasília, a vida política provincianizou-se e, aos poucos, submergiu nas coalizões eleitorais dos caciques interioranos. Com isso não se corrompeu apenas o acesso ao erário público, mas também sobreveio aberta promiscuidade entre crime e Estado.
Fragmentadas em zonas de tráfico e milícias, sujeitas à lavagem de cérebros pela máquina pentecostal, as massas eleitorais passaram a ser regidas pela lógica do pior. O senso comum carioca anestesiou-se na sensação praieira de que, se o indivíduo tem um tumor, não falar dele melhora. Não causou escândalo público a condecoração de matadores do “escritório do crime” pelo parlamentar Flávio Bolsonaro em plena penitenciária. O estado virou refém de quadrilhas e clãs criminosos.
Em princípio, cultura e turismo, que sempre responderam pelo brilho internacional do Rio, não foram afetados pela necropolítica das ruas nem pelo fascismo moral das massas, adeptas do combate ao terror pelo terror. Festeja-se a matança simultânea de 120 pessoas, com sugestões de moderação no extermínio e promessas de um megaevento, que incrementaria turismo e “cultura”, definidos numa mesma chave produtiva. Mas, quando a cidade volta ser ela mesma, a palavra-chave é caos urbano.
Esse é o ciclo vicioso do Rio de sangue, em que navega o senador Flávio Bolsonaro com a fantasia de que os EUA bombardeiem a Guanabara para acabar com o crime. Assumindo o golpismo como partido, ele faz campanha em inglês (“dog English”, na verdade), pregando o “delivery” da soberania brasileira ao governo norte-americano.
Isso agora, pós-idos do março ominoso. Tom Jobim está coberto de poesia e razão: “é a lama / é a lama”. Nos palanques, nos palácios, em pororoca.
Fonte ==> Folha SP