Foi um desastre de proporções aeronáuticas, até no fato de não haver uma, mas muitas razões para o sinistro.
Parafusos soltos para todos os lados —do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal, de uma presidência do Congresso hostil e de um Senado com agenda eleitoral— levaram à rejeição de um indicado ao STF. Uma quebra de tradição de 132 anos.
É o que diz a vida: as coisas não acontecem até que começam a acontecer. Foi assim quando se abriu a porteira dos impeachments presidenciais. Pode ser que também tenha sido aberta a via para o impedimento de ministros do Supremo, mas isso é algo a ser visto adiante no campo das consequências.
No terreno mais imediato das causas, há várias a serem levadas em conta. O momento de fragilidade política do governo, do ponto de vista da expectativa de poder aliada aos questionamentos à qualidade e aos critérios da indicação, fez de Jorge Messias o candidato ideal para o gesto de retaliação e afirmação do controle de Davi Alcolumbre (União-AP) sobre o Senado.
O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) de um lado subestimou o oponente e de outro superestimou a competência do seu time de articulação política, fiando-se também no apoio propagado por alguns magistrados que, viu-se depois, estavam mais interessados em uma rejeição que pudesse aplacar a sede de sangue da oposição em relação ao tribunal.
Ciente do risco, a ala ativista da corte achou que a melhor maneira de se proteger seria partir para o combate —e o fez na tentativa de mudar o rito do impeachment para ministros, a interdição do trabalho de comissões de inquérito e as ameaças pontuais a quem ousasse questionar sua presumida intocabilidade.
Na quarta (29), deu-se o efeito rebote na forma da mais humilhante derrota de todas as sofridas por Lula. Tão atordoante o resultado daquele 42 a 34 que não havia plano B no horizonte. Dos possíveis caminhos para contornar o revés, nenhum fornece uma boa saída. Como nos desastres de aviação, procura-se a caixa-preta que possa conter a solução.
Fonte ==> Folha SP