Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas (BA), Milton Santos construiu uma trajetória intelectual extraordinária em um país que cultiva aversão a intelectuais independentes e exclui populações negras das universidades. Mesmo num ambiente estruturalmente racista, tornou-se um dos maiores geógrafos da história mundial e um dos mais destacados mestres que o Brasil já produziu.
Em 2026, ano do centenário de seu nascimento —e particularmente nesta semana de 3 de maio, “Dia de Milton Santos”—, universidades de todo o país realizam eventos para rememorar seu legado de vida e obra sobre globalização, território e espaço social.
Um evento em particular merece destaque: o seminário “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do século XXI”, organizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e pelo Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde lecionou por tantos anos. O encerramento acontece nesta sexta, dia 8, das 10h às 19h, com mesas-redondas, conferências e apresentações artísticas. O evento é gratuito, aberto ao público presencial e transmitido online pelo canal do IEB-USP no YouTube.
Sobre o IEB, é necessário destacar o esforço formidável de preservação e catálogo de documentos, fotografias e memórias da vida e da obra do pensador no Acervo Milton Santos. São documentos disponíveis para consulta pública que ajudam a manter em cores vívidas a passagem de um cometa, daqueles que apenas surgem de tempos e tempos, raros.
É muito difícil para qualquer pessoa no país transpor os muros que confinam o pensamento nacional ao solipsismo e importação. Sendo Milton Santos um homem negro, então podemos afirmar sem medo que se trata de um caso raríssimo na história do Brasil. Ficam aqui meus mais entusiasmados cumprimentos ao IEB e à equipe da professora Elisabete Marin Ribas, a “professora Bete”, reconhecida pela Fapesp como a “guardiã do legado de intelectuais brasileiros”.
No IEB, é possível tomar contato com um acervo fotográfico de Milton Santos de diversos lugares do mundo onde foi convidado a lecionar ou onde recebeu láureas máximas de honoris causa. Vale dizer que o intelectual, enquanto professor da USP, foi agraciado, em 1994, com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, a mais distinta condecoração no campo da geografia. O prêmio é concedido anualmente na cidade de Saint-Dié-des-Vosges, na França, o que, para além do brilhantismo intelectual do pensador brasileiro, também nos abre uma janela para olharmos para sua trajetória, ainda que de maneira breve.
Doutor pela Universidade de Estrasburgo, Milton Santos se tornou livre-docente pela Universidade Federal da Bahia em 1960. Naquele período, foi empossado como subchefe da Casa Civil do governo Jânio Quadros e, em seguida, também trabalhou como presidente da Comissão de Planejamento Econômico do governo da Bahia. Trabalhou como editor do jornal A Tarde e sua carreira seguia um rumo consolidado, até que tudo mudou com o golpe de 64 e a instauração do regime militar, que o prendeu logo nos primeiros meses e o exilou durante 13 longos anos.
No exílio, sua trajetória acadêmica ascendeu e o mundo se encantou. Lecionou em universidades em Toulouse, Bordeaux e Paris, na Sorbonne. Em seguida, foi convidado a lecionar na Universidade de Toronto, no Canadá, até chegar ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde escreveu “O Espaço Dividido” (1979), uma de suas mais importantes obras. Passou também por universidades na América Latina e na África e foi consultor em inúmeros organismos nacionais e internacionais.
Quando retornou ao Brasil, passou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro até chegar, em 1984, à USP, onde permaneceu como professor até sua aposentadoria, em 1997. Milton Santos faleceu em 2001, aos 75 anos, colecionando dezenas de prêmios e honrarias no Brasil e no exterior, além de um sem-número de livros, artigos, cursos, aulas, conferências, orientação de pesquisas.
Uma coluna de jornal é muito pouco diante da vastidão de sua obra. Ainda assim, penso ser importante registrar sua trajetória exemplar, que se torna ainda mais interessante quando lembramos que Milton Santos era um homem negro que pensava de forma autônoma, sem vinculações nacionais de submissão intelectual a partidos, movimentos sociais ou fundações de qualquer natureza. Por isso, pagou um preço.
Para ele, porém, o papel do intelectual era justamente “trazer o desconforto”. A propósito: será que mudou muito a forma como intelectuais negras independentes são tratadas dentro do seu próprio país? Fica a reflexão.
Como uma intelectual que se inspira muito em seu trabalho, digo: muito obrigada, Milton Santos. Que venha um centenário à altura de sua imensidão.
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Fonte ==> Folha SP