No universo das grandes partidas da história brasileira, a Revolta da Chibata ocupa lugar de destaque. E quem jogou de craque nessa partida foi João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”.
Para entender o placar de 10 x 0 sobre a Marinha de Guerra do Brasil, é preciso voltar ao início do jogo: a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, foi uma reação dos marinheiros contra os castigos físicos brutais — principalmente as chibatadas— impostos por oficiais, numa época em que a abolição da escravidão ainda não havia se consolidado nas práticas institucionais. João Cândido, liderança desse movimento, driblou a repressão e, junto com cerca de 2.000 colegas, exigiu respeito e o fim da tortura. Ele não apenas venceu o primeiro tempo, mas foi fundamental para que futuras gerações jogassem sem medo no campo dos direitos humanos.
Em pleno início do século 20, a Marinha do Brasil mantinha práticas anacrônicas, castigando marinheiros —em sua maioria negros ou filhos de ex-escravizados— com chibatadas que lembravam os tempos de senzala. João Cândido, o capitão do time da resistência, articulou o movimento que, em novembro de 1910, parou o país: com navios sob controle dos revoltosos, a Marinha foi forçada a rever seus métodos. O apito final desse confronto histórico marcou a vitória dos marinheiros, mas o craque João Cândido pagou caro: perseguição, prisão e injustiça. Ainda assim, seu nome virou símbolo de coragem e luta pela dignidade.
Avançando para 2024, a partida ganhou novo ritmo. Quando o comandante da Marinha de Guerra, o camisa 10 do time oficial, resolveu atacar a memória de João Cândido, chamou o líder da Revolta de “figura abjeta” e classificou o movimento como “opróbrio” da história. Jogada perigosa: tudo gravado e lido publicamente, em plena Casa do Povo —local onde se decidem partidas importantes para a democracia. O almirante tentou impedir que João Cândido fosse incluído no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, orientando deputados a votar contra a honraria em uma Audiência Pública, apostando numa retranca institucional.
Mas o adversário não se intimidou. O Ministério Público Federal entrou em campo, movendo uma ação civil pública contra a União, defendendo que a Marinha usou linguagem estigmatizante e pejorativa ao atacar João Cândido e os marinheiros da revolta. A ação foi o chute inicial de uma goleada judicial: o juiz, ao analisar a carta e os argumentos, reconheceu que ao difundir documentos oficiais com conotação negativa sobre a luta dos marinheiros anistiados, a Marinha não só contestou uma honraria parlamentar, mas também tentou editar —em nome do Estado— uma narrativa que condena a resistência negra. Nem foi preciso VAR: dez pênaltis cobrados, nenhum defendido pelo goleiro oficial.
O resultado não poderia ser outro: União condenada a pagar R$ 200 mil por empregar termos como “abjetos” e outros equivalentes, ferindo princípios fundamentais da República. O juiz reconheceu o direito à opinião, mas destacou que manifestação de autoridade pública é um ato de Estado e não pode desrespeitar os valores republicanos —foi o apito final que selou a vitória por 10 x 0. O almirante, que tentou barrar o craque João Cândido, acabou levando a marinha à uma derrota histórica, um vexame que ficará no replay.
João Cândido, agora definitivamente camisa 10 e capitão da memória nacional, é reverenciado em livros, sambas-enredo, nome de escolas e petroleiro, peças teatrais e por aí vai. O documentário “João Cândido, um Herói sem Máscara” (CULTNE TV, direção de David Obadia e Don Filó) já teve pré-lançamento. Sairá da gráfica mais uma história em quadrinhos (Risco ed.). Na música, o “Mestre-Sala dos Mares”, imortalizado por Aldir Blanc e João Bosco, segue embalando as torcidas pela justiça e pelo reconhecimento da luta contra a violência institucional.
No futebol, como na vida, é fundamental saber perder. A Marinha jogou contra a própria memória e saiu derrotada. A torcida —composta por todos nós que valorizamos justiça, direitos humanos e respeito aos heróis do povo— agradece. João Cândido driblou o preconceito, marcou os gols decisivos e garantiu o título de herói, sem máscara e sem derrota. Que o campo da história continue aberto para novas partidas, onde a justiça e a memória joguem sempre no ataque.
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Fonte ==> Folha SP